E eu, então?Prof. Tania Zagury
Dez/03
             Fico impressionada com o número de pessoas que reclama de não ter amigos, ou do quanto foram leais e como receberam ingratidão em troca...Também se encontra quem afirme, categoricamente, como é mais fácil haver companheirismo entre homens do que entre mulheres; há também os que dizem ser mais viável a lealdade entre um homem e uma mulher do que entre homens ou entre mulheres. Enfim, vivemos cercados de estereótipos. Acreditando neles ou não, muitos parecem concordar em uma coisa ao menos: na insatisfação com os amigos, especialmente no que se refere à lealdade e solidariedade. A impressão é de que todos poderiam contar nos dedos de uma das mãos, o número de amigos “de verdadeque têm.

          Por outro lado e ironicamente, desde que o Betinho retornou e engajou todo um Brasil em suas campanhas de solidariedade, milhares de pessoas, das mais diversas áreas, se engajam, colaboram, doam-se, tentando ajudar os menos favorecidos, fazendo enfim, sua parte. Mesmo assim, no campo pessoal, a insatisfação parece aumentar e persistir. Quase todos se queixam de não ter com quem conversar, da solidão, do individualismo, da competitividade, de não ter com quem trocar idéias, ou, minimamente que seja, desabafar. Há pouco tempo, um jornal de grande circulação nacional noticiou que pesquisa realizada nos EUA demonstrou que os casais modernos, conversam, em média, entre trinta minutos e duas horas por semana. Conseguem imaginar isso? Juntar suas vidas, morar na mesma casa, ter filhos, e conversar duas horas, em média, por semana ? Deve ser a soma dos “bons-dias”, “boas-noites” e “quem leva as crianças à escola amanhã?” - e ! E isso no momento em que cerca de 50% dos casais se separam... Talvez seja por isso mesmo, quem sabe ? Talvez a falta de diálogo, de companheirismo, de amizade, de solidariedade seja um dos fatores. Ou quem sabe, por outro lado, se conversassem, se falassem verdadeiramente o que sentem, se deixariam mais rápido ainda? É tão difícil encontrar pessoas que estejam, de fato, dispostas a ouvir o outro... perceberam quantas vezes, comentando com amigos sobre pequenas agruras do dia-a-dia (tipo: “ai, estou com uma dor de cabeça...” ounossa, estou moída, peguei uma gripe...”), recebemos como resposta a emudecedora frase: “e eu, então?”...  Mal você começa a contar o problema que está vivenciando com seu filho ou a briga que teve com a namorada, a discussão com o marido, as contas que não pode pagar e entrou no juro bancário, o quanto está preocupado com a doença da sua tia, imediatamente ouve  “e eu, então?” Se você diz que está assoberbado de tanto trabalho e compromissos, de chofre escuta “e eu, então?” Enfim, parece que vivemos cercados de pessoas que competem tanto, mas tanto, que lutam até por estar pior que você... Dá a impressão de ser uma disputa para saber quem está sofrendo mais, em vez de um apelo ao amigo - um desabafo, um pedido de “colo” a quem se considera solidário... O “e eu, então?” tem a capacidade mágica de fazer calar qualquer um que tenha um mínimo de sensibilidade. Afinal, significa, para um bom entendedor, “não me conte nada, tenho os meus próprios problemas, suficientes e piores que os seus...”

Se tanto se fala em solidariedade, não será hora de começarmos a rever a quantas anda a nossa própria? Estaremos permitindo ao outro encontrar “aquele ombro amigo” (que procuramos e vivemos reclamando não encontrar), cada vez mais raro?  Ou, sem perceber, apressamo-nos a jogar-lhe em cima o “e eu então” de forma a impedir qualquer queixa, e, portanto, o mínimo apoio?  Ah, que coisa boa ter alguém com quem conversar, que apenas nos dê um olhar carinhoso e compreensivo, aquele tapinha nas costas quando a gente diz “ai que dor de cabeça...” em vez de “e, a que eu tive ontem, então?” (o que faz a simples dor de cabeça virar, de imediato, uma tremenda enxaqueca). Não precisa resolver nada, apenas ouvir, com afeto e empatia, e responder: “Que pena! Vamos ver se encontro algum comprimido na minha bolsa!” ou “Será que você pegou uma gripe?” ou “Você está preocupado com alguma coisa? Algo que eu possa ajudar?”...

O que as pessoas precisam no momento em que buscam o amigo, é sentir que ele se esquece dos seus próprios problemas e, por alguns minutos dedica-se a olhar, ouvir e sintonizar o que você está dizendo. É só isso que querem: um ouvido amigo, um gesto de afeto e de atenção - mas verdadeiros.

É por aí que começa a solidariedade, pelas atitudes de interesse e é assim que a vida se torna mais fácil, as pessoas menos amargas, menos frustradas, porque não se sentem tão sozinhas. Enquanto cada um julgar que é o único que sabe ouvir e ser amigo, e, exatamente por isso, mal alguém começa a contar a sua dificuldade joga, por pura mágoa, a muralha invisível e intransponível do “e eu, então?”,  estaremos perpetuando um círculo vicioso, que jamais será rompido. No entanto, se, ao contrário, pensarmos – com isenção e sinceridade - se também nós não andamos, ainda que por pura revanche, repetindo esse modelo, aí sim, estaremos possibilitando um reinício de verdadeiro companheirismo.

Solidariedade começa junto àqueles com os quais a gente convive, para daí então se espraiar  para a sociedade como um todo.

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