Divórcio e Adolescência - Como falar (Parte II)Prof. Tania Zagury
Fev/07
Mesmo que pareça (com toda razão) que seus filhos não estão nem aí para o que
vocês estão sentindo ou fazendo, não se iludam. As atitudes independentes dos
jovens podem, em princípio, dar essa impressão, levando à idéia de que pouco
ou nada sentirão em relação à separação dos pais.
Na verdade, o sentimento que os pais têm é de que os filhos adolescentes estão sempre tão ocupados e sem paciência para a família, ausentes de casa quase todo o dia, devido ou aos seus afazeres escolares, esportivos, aulas de línguas etc., ou, nos fins-de-semana, completamente envolvidos com os amigos, os intermináveis e secretos telefonemas, as portas trancadas, os programas, cineminhas, paqueras, festas, boites, praias etc. que, de fato, a noção que nos passam é exatamente essa: “eles não se importam conosco”; daí a julgar que a separação não os irá afetar é um pequeno passo. Mas, pelo contrário, justamente por conta dessa tendência egocêntrica, é preciso envolvê-los nas questões familiares, mostrar-lhes que eles têm um papel na dinâmica familiar e, especialmente, que as opiniões deles são importantes para nós – que são ouvidos e respeitados.
            É preciso considerar também que, na adolescência, as inseguranças e os temores em relação à vida, ao mundo e ao futuro já são suficientemente grandes - mesmo numa família bem estruturada e equilibrada emocionalmente. Se os pais estão se separando, esses medos e angústias tendem a aumentar e é importante que exista franqueza e autenticidade na relação, suficientes para que ambas as partes consigam falar sobre seus sentimentos.
Outro motivo importante é conseguir fazer com que nossos filhos desabafem de preferência sempre conosco, o que torna essencial conversar sobre a separação, para que tenham com quem expressar seus medos ou até sua raiva.            Como é exatamente na adolescência que estão começando a ter expectativas e contatos com o sexo oposto, é natural que idealizem o que seja felicidade numa relação. O fato de ver sua própria família se desfazer, pode gerar (lembrem-se, pode não é sinônimo de sempre!) um processo de descrédito com relação às suas próprias possibilidades de construir uma relação sólida. Externar idéias e debatê-las é, portanto, fundamental, para que não acabem fazendo generalizações ou tirando conclusões inadequadas.
A tarefa, no entanto, não será fácil. Devemos considerar o fato de que raramente o adolescente fala com os pais sobre o que sente, o que não significa que as dúvidas não existam. De modo geral, o jovem tende a fugir de temas que considera poderão sensibilizar os pais, por isso nós é que devemos falar a respeito. Mesmo que seja difícil para os pais, vivendo um momento tão delicado, é bom lembrar que não externar os reais sentimentos em relação a fatos tão importantes e que afetam diretamente suas vidas, pode levar nossos filhos a problemas; numa troca de idéias autêntica e afetuosa, muitos fantasmas são desfeitos. É especialmente importante esclarecer que um casamento que termina, não prova que todos os relacionamentos fracassam ou são problemáticos. 
            Os sentimentos dos filhos adolescentes em relação à separação dos pais são em geral, contraditórios. Como, devido à idade eles já percebem, com facilidade, que os pais não estão mais se entendendo, que estão tristes, brigando muito ou frios um com o outro, a notícia da separação pode gerar uma atitude de aceitação imediata. É como se nos dissessem “já imaginávamos, por isso não estamos surpresos, nem preocupados”, mas é importante que os pais não se deixem iludir por essa impressão de auto-suficiência, que, em geral, é apenas aparente. Mesmo prevendo o desfecho, eles precisarão, sem dúvida, de apoio e compreensão.
Às vezes, o jovem oculta seus medos, para não parecer “uma criancinha assustada e dependente”, mas é bem provável que esteja se sentindo exatamente assim. E como o casal que se separa também está assustado e desestruturado, é até compreensível que essa atitude seja rapidamente aceita como verdadeira - e até com certo alívio (“ufa, um problema a menos”, pensam os pais). Pode ser verdade – ou não... É preciso, pois, estarmos atentos para os sinais. Nem tudo pode estar tão tranqüilo como parece. Às vezes eles bloqueiam tanto seus sentimentos que, depois, podem até ter dificuldade de expressá-los em outros momentos ou outras relações, com a namorada ou namorado, por exemplo.
                        Por isso tudo (e ainda mais) é importante que haja possibilidade real de os jovens expressarem como se sentem em relação à separação dos pais, dando margem a esclarecimentos e informações que os revigorem e fortaleçam num momento tão delicado. E isso só é possível quando pai e mãe estão realmente voltados para esse aspecto da separação. Muitos casais, assoberbados que estão com seus próprios problemas – graves e concretos, não há dúvida – podem inadvertidamente descuidar dos filhos adolescentes, que, afinal, parecem continuar alegres e despreocupadamente envolvidos com suas próprias tarefas, afazeres e amigos. Pode até ser que efetivamente assim seja, mas não custa nada, averiguar, para não lamentarmos mais tarde.
                        No próximo artigo, falaremos sobre “o que e quando dizer sobre divórcio”.  
           
 
 

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