Divórcio e Adolescência - O que e Quando falar (Parte III)Prof. Tania Zagury
Fev/07

Todos estão tensos, mas a separação é inevitável e está decidida. Qual o momento mais adequado para comunicar aos filhos notícia tão grave? E o que, exatamente, falar? Reconheço que a vontade de fugir deve ser muito, mas muito forte mesmo, mas se vocês querem realmente evitar mais problemas para suas já tumultuadas vidas, algumas medidas podem ajudar bastante:

Quando falar
Primeira coisa importante: a separação só deve ser comunicada aos filhos, quando, efetivamente, tiver um caráter final. Não se deve falar nisso enquanto for um TALVEZ e, especialmente após uma briga, quando a cabeça está quente e as diferenças ainda poderão ser resolvidas e superadas. Já pensou como pode ficar a cabecinha de um jovem que, a cada mês ou quinzena, ouve os pais afirmando “assim não dá mais, vou me embora” e, horas depois os encontra aos arrulhos e beijos, fazendo as pazes?
Quando já for um fato - só então - pai e mãe devem combinar o dia e a hora em que, juntos, comunicarão aos filhos o que ficou resolvido. É muito importante escolher um momento em que o pai, a mãe e os filhos – adolescentes ou não – estejam reunidos em casa, com calma, sem pressões de horários ou outros compromissos.
A presença dos dois é importante para não alimentar a idéia de que a decisão foi tomada unilateralmente. É muito natural que filhos desejem ver os pais sempre unidos, não é mesmo? A presença dos dois dá consistência e realidade à situação, ao mesmo tempo em que permite a cada um apresentar a decisão e os motivos que a geraram do próprio ponto de vista, provando que a decisão foi pensada, amadurecida e definida em conjunto. Isso evita enganos e falsas esperanças nos filhos. Também previne versões diferentes para um mesmo fato: a simples presença do outro, já age como freio... Quando as pessoas estão muito magoadas são capazes de fazer coisas horríveis, de que poderão arrepender-se muito, mais tarde: como mentir, exagerar a culpa do outro etc.
Em caso de desentendimento grave do casal, pode se tornar impossível a presença dos dois; nesse caso, aquele que estiver com os filhos deve explicar a ausência do outro e assegurar-lhes que logo terão oportunidade de fazer contato direto.
É preciso tentar, com todas as forças, apresentar os fatos de forma tranqüila, de preferência sem acrescentar ao relato julgamentos ou expressões depreciativas sobre o cônjuge. Por mais que se sintam tentados, lembrem-se: o problema é entre vocês dois e não entre pais e filhos. Quanto vale não aumentar a carga dos seus problemas pessoais com distúrbios emocionais nos filhos? Não tem preço.
Existem casos em que a separação ocorre porque o pai (ou a mãe) foi embora com outra pessoa, ficou seriamente doente (casos de internação por forte desequilíbrio emocional, demência, depressão grave, etc.) ou cometeu um delito grave seguido de prisão ou fuga. Dentro do possível, deve-se justificar a ausência falando a verdade, mesmo que atenuando um pouco, em casos mais sérios. É importante que os filhos não julguem que o pai ausente não quis ou não se preocupou com eles.
Alguns pais escolhem a hora de dar a notícia no momento menos apropriado, porque sabem que essa forma facilita “uma fuga rápida” da situação tão estressante: então, cinco minutos antes de sair para o trabalho ou um pouco antes da chegada do ônibus escolar “jogam a bomba e saem de campo”. Essa atitude é compreensível, mas por mais difícil que seja, é preciso dar tempo e calma para as crianças “digerirem” o fato. Portanto, por mais tentador que pareça, não convém ceder ao impulso: pode ser mais simples no momento, porém pode tornar-se muito mais complicado depois.
Outros escolhem abordar o tema num lugar que consideram “neutro”, como um restaurante ou um parque de diversões, porque nesses locais, pelo menos em tese, os filhos teriam que controlar suas emoções e sua forma de falar. O ideal é que a comunicação seja feita em casa, com todos os filhos presentes, em hora que ninguém tenha nenhum compromisso imediato. O objetivo é justamente facilitar a liberação das emoções: a porta está fechada, não há estranhos por perto e assim os jovens podem fazer todas as perguntas que quiserem, chorar se tiverem necessidade, e, até mesmo, expressar sua raiva ou revolta. Mesmo quando o clima em casa já é bem ruim e os filhos adivinham que a separação pode acontecer, eles sempre esperam que os pais permaneçam juntos a não ser, claro, em casos de violência física, alcoolismo, desrespeito violento etc.
Se for possível evite falar sobre o assunto quando vocês estiverem deprimidos ou descontrolados. Claro que vocês podem – e até devem - deixar transparecer seus sentimentos de desilusão, tristeza ou decepção mas tentem estar, pelo menos, controlados quando forem abordar o assunto.
Se seus filhos se dão muito bem com os avós ou padrinhos, talvez seja uma boa idéia falar quando eles estiverem presentes (desde que os primeiros já saibam e tenham aceitado a idéia... Já pensou dar a notícia a todos ao mesmo tempo, e cada um achar que tem direito ao seu próprio ataque histérico? Em vez de ajudar, piora muito... Imagine, se seu sogro ou sogra, começa a dizer “eu sabia, eu bem que avisei que não ia dar certo, meu filho, mas você não quis me ouvir..). Se alguns dos familiares têm presença e participação constante na vida de nossos filhos, pode ser bom. A idéia é que, com a presença deles, os filhos sintam que, embora seu pai e sua mãe estejam se separando, a família não está se desfazendo inteiramente. Isso também dá oportunidade de encontrarem nessas pessoas suporte emocional.
Pode-se também conversar em separado com os adolescentes para abordar alguns aspectos que os mais novinhos poderiam não entender. A primeira notícia, no entanto, deve, de preferência, ser dada na presença de todos.
Cada filho tem uma reação própria em relação à separação. Mas, de qualquer maneira, não é raro que as atitudes mudem. Os que aceitaram de forma compreensiva podem, alguns dias depois, apresentar reações de medo ou ansiedade e vice-versa. Portanto, os pais devem ter atenção redobrada com os filhos adolescentes, para que, a cada sinal de mudança, possam voltar ao assunto e dizer o que estão sentindo, quais os medos ou inseguranças que surgiram.

O que falar
Até onde contar? “Houve traição - conto? Meu marido me espancou; meus filhos devem saber que esta é a causa da separação?” É compreensível que pais zelosos tenham dúvidas sobre quanto e o que se deve contar sobre as relações entre o casal. Relatar certos fatos pode dificultar – às vezes até impedir - o relacionamento posterior entre pais e filhos. Não tem sentido entrar em detalhes que poderão afetar a imagem de cada um dos pais em relação aos filhos, a não ser em casos extremos, em que isso se torne até fundamental, como quando a separação é determinada por motivos relacionados à conduta antiética (roubos, desfalques, chantagem, etc.) ou que ameacem até mesmo a segurança (casos de desequilíbrio emocional grave, doença psiquiátrica etc.).
O importante é:
1) Comunicar com clareza a decisão que foi tomada – não hesitar; não usar meias verdades;
2) relatar todas as tentativas de entendimento anteriores, até optarem pela separação;
3) garantir que o divórcio trará mais equilíbrio, paz e harmonia para todos (e cumprir...) ;
4) dar garantias de que o amor pelos filhos, tanto do pai quanto da mãe, continuará a existir sempre, independente do local onde estejam residindo (e cumprir...);
5) deixar claro que os filhos não têm qualquer culpa em relação à decisão que foi tomada;
6) esclarecer o que muda e o que não muda na rotina de cada um dos filhos a partir da separação (em relação à escola, onde e com quem irão morar, nível de vida, etc.)
7) assegurar que terão acesso fácil ao pai com quem não mais residirão (e zelar para que efetivamente isso aconteça; nada pior do que usar os filhos para agredir ou punir o ex-cônjuge);
8) dar total possibilidade aos filhos de esclarecerem suas dúvidas, medos e inseguranças, a qualquer momento em que desejem voltar ao assunto.

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(*) Mestre em Educação, Filósofa, Professora da UFRJ, Escritora, autora de “O Adolescente por Ele Mesmo” e “Encurtando a Adolescência”, entre outros.

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