Luto, na linguagem psicanalítica é o termo genérico utilizado para classificar o período de elaboração, reestruturação até a aceitação emocional, intelectual e relacional de perdas vida das pessoas, sejam elas afetivas, psicológicas ou materiais.
Para os pais de hoje - sempre cheios de preocupações e medos – o “luto” de um filho pode ser tremendamente angustiante. Embora ciente de que o receio que os pais sentem seja uma das significativas formas de amar, é preciso ter em mente que ninguém passa pela vida sem sofrer, sem ter perdas ou sem ficar doente. Nem os nossos filhos!
É importante que entendam as perdas que as crianças sofrem como elementos essenciais para o desenvolvimento emocional, assim como para o relacionamento futuro com outras pessoas.
Sofrer faz parte da vida. Ninguém tem tudo o que deseja sempre. Nem a pessoa mais rica do mundo pode conseguir tudo o que quer – embora muitos tenham essa impressão e por isso se dediquem com tanto empenho (e desgaste físico, mental e até moral) a alcançar esta meta.
Tenha muito ou pouco dinheiro, fama e poder, sejam ou não celebridades - no final das contas, todos somos iguais, feitos da mesma massa. E terminamos todos da mesma forma.
Na civilização ocidental a morte é vista como algo sempre muito dramático, triste e mesmo inaceitável. Mesmo os que acreditam em vida depois da morte, reencarnação ou outras formas de retorno, não a encaram com a naturalidade que assumem frente a outros fatos da vida. Queiramos ou não, a morte é a última etapa da existência física.
É claro que quanto mais cedo se sofrem perdas emocionalmente significativas, mais difícil pode se tornar a aceitação, devido, até mesmo, à dificuldade de compreender conceito tão abstrato. A criança pequena não tem ainda desenvolvida noção exata de tempo e espaço. Por isso, se alguém diz a uma menina de três anos, que a mãe dela nunca mais vai voltar, que está dormindo para sempre, ou que foi para o Céu – formas corriqueiras de explicar a ausência sem retorno às crianças – ainda assim, deve saber que a criança registra essa informação de um modo todo próprio.
Devido a essa forma específica de interiorização de fatos e conceitos da infância pode-se a princípio até supor que as perdas não são verdadeiramente sentidas pela criança em idade pré-escolar. À medida que cresce, essa característica vai mudando e novas capacidades ligadas à temporalidade começam a se desenvolver.
O papel dos pais nesse processo é muito importante e não se restringe apenas à ações relativas a perdas essenciais como a morte de um parente próximo como um avó ou avó, um tio ou irmão. A ação da família, assim como a da escola, deve começar pelas perdas simples, que, aliás, são mais freqüentes no dia a dia. Uma ação adequada de suporte deve começar exatamente quando surgem essas pequenas perdas na vida da criança. A começar pela idéia de que nada é para sempre: nem a própria vida - lição que precisa ser interiorizada paulatinamente a partir de pequenos acontecimentos da vida diária.
Como fazer isso na prática? O buquê de flores que enfeita sua sala vai murchar e morrer em alguns dias. Fazer a criança acompanhar naturalmente esse processo é um ótimo recurso. Sejamos inteligentes, porém! Nada de dizer: “vamos ver se a flor já morreu?” Simplesmente ensine a criança a observar, convidando-a a lhe acompanhar no processo de cuidados com a flor, como molhar, retirar galhos secos etc. Um botão que se abre antes dos demais, primeiro um pouquinho, mais tarde mais um pouquinho, até se tornar uma linda e perfumada rosa, que depois vai perdendo o viço, perdendo folhas e pétalas... Até nada mais restar. Esta é uma visão simples, mas eficaz do processo de nascimento, crescimento, reprodução, envelhecimento e morte.
Acompanhar outras formas de evolução de vida facilita a generalização anos mais tarde. Nesse processo, devemos com certeza incluir a reintegração à natureza. Aquelas pétalas que caíram da jarra na mesa da sala podem ser levadas para adubar o jardim, a terra de um vaso ou uma outra planta. Na escola, os professores podem aprofundar a observação da criança, por exemplo, pedindo que descubram qual a flor mais nova numa roseira, qual a mais velha, a que está começando a brotar, referendando a teoria do eterno retorno, que depois a criança associará, por si, ao processo de nascimento, vida e morte.
Crianças sofrem varadas formas de perdas - um animal de estimação, um brinquedos que quebra, fitas de vídeo que se rompem. Muitos pais, para evitar que a criança sofra, se morre o cachorrinho do filho, correm para comprar outro, bem parecido - da mesma cor, tamanho e raça. Por amor, não percebem que estão tirando a oportunidade de a criança compreender as “perdas” da vida, que ocorrerão quer queiramos ou não. São “lutos” que precisam ser elaborados. Substituir um passarinho que morreu por outro igualzinho impede a criança de entender o sentido da morte, da perda e do luto. É saudável entender que aquele que se foi (brinquedo ou ser vivo) não retornará. Pode ser que ela fique muito feliz na hora, mas é preciso que saiba que este é outro – não o mesmo – e como tal precisa por sua vez ser conquistado, compreendido e, com o tempo, também amado.
O mesmo ocorre com a criança que quebra um brinquedo que adora. O medo de que a criança sofra ou fique frustrada, muitas vezes, faz com que os pais imediatamente comprem outro. Aí entra mais um dado. Quando não se dá tempo para que a criança aprenda que cada ser é único, ensina-se subliminarmente que nada nem ninguém têm valor, que tudo pode ser substituído.
É preciso que as crianças aprendam que o sofrimento existe e faz parte da vida, assim como a felicidade, a amizade, a alegria, a tristeza, a saúde e a doença. Mas que ele é e pode ser superável, especialmente quando se compreende que o ser humano tem limites; e que o maior de todos eles talvez seja o fato de que, embora não o desejássemos, somos sim, todos os seres humanos, mortais.
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(*) Filósofa, Mestre em Educação, Escritora autora de “Educar sem Culpa” e “Limites sem Trauma” entre outros.