As temíveis "más companhias"Prof. Tania Zagury Mai/07
Pais conscientes e dedicados passam anos e anos de suas vidas orientando, educando, protegendo os filhos. Enquanto pequenos é mais fácil (“fácil” é força de expressão se o tema é educar...). Quando começam a sair sozinhos, fica mais complicado. Festinhas, cinemas, shows... Que medo, que sufoco! Tanta notícia horrível nos jornais!
Como agir se um belo dia (belo??!) você vê ou fica sabendo que seu filho vem fazendo “novos melhores amigos” entre aqueles que - com certeza – são considerados “péssima compa¬nhia”? Será que proibir o contato funciona? E qual o caminho, se a proibição, pura e simples - não adianta?
Defendo a tese de que devemos ser autênticos nas nossas relações. Com filhos então, mais ainda! Portanto, se você tem certeza de que alguns amigos exercem ou poderão vir a exercer má influência sobre o seu filho, enfrente o assunto com franqueza e de forma direta.
“Proibir” de forma taxativa e unilateral, principalmente na adolescência, é atitude que tende a desmoralizar, mais que funcionar. A não ser, pois, em situações especialmente perigosas, deve-se evitar a proibição pura e simples. O ideal, primeiramente, é tentar estabelecer um diálogo franco, no qual se coloquem as informações que nos chegaram; em especial os fatos de que tivemos conhecimento. Digo num primeiro momento porque nós, pais, sabemos que o mais bem intencionado diálogo às vezes não é aceito por alguns adolescentes. Há três décadas agradeceríamos a Deus se tivéssemos podido conversar com nossos pais sobre certos assuntos... Atualmente, muitos pais me confidenciam, é preciso quase “obrigá-los a conversar”... Que coisa estranha e difícil, meu Deus! Meu marido, quando nossos filhos estavam nessa fase, dizia, de forma meio trágica meio cômica, que até que os filhos se tornem adultos responsáveis, nós, pais, passamos vinte e quatro horas dos nossos dias “evitando que eles se matem”... Exageros à parte, é mais ou menos isso que nos cumpre fazer em vários aspectos...
Mas voltando ao tema: Considero essencial que explicitemos claramente os receios em relação ao que supomos poderá prejudicá-los e aos demais membros da família. Falar das nossas emoções e sentimentos é positivo porque revela aos filhos uma face mais humanizada dos pais, referendando nosso carinho e cuidados com eles. Em especial revela o nosso amor. Além disso, para que o diálogo funcione é fundamental que o jovem possa fazer, também ele, suas colocações sobre o problema sem que encaremos enfoques que contrariam os nossos como obrigatoriamente errados ou infundados. Às vezes exageramos mesmo nos medos e cuidados. Afinal, vivemos uma época tão violenta e assustadora, que uma paranoiazinha é praticamente normal. Para ilustrar, relato um caso verídico.
Uma jovem mãe de adolescente ficou sabendo, de fonte segura, que um dos colegas do filho fazia uso regular de maconha, com possibilidade de passar a outras drogas, mais pesadas, em curto prazo. A primeira reação que teve - claro - foi de medo. Medo não, pânico!!!! Sa¬bendo como os jovens são influenciáveis ficou muito insegura, desarvorada mesmo, até porque o rapaz freqüentava a casa deles. Gosto de lembrar que, se uma criança é orientada e educada com amor, segurança e limites desde a infância, não é absurdo confiar em que os princípios éticos fundamentais que passamos a ela, desde o nasci¬mento até a juventude, dão bons frutos – quase sempre. Então, se a sua é uma casa onde a justiça, a ética, o amor e o equilíbrio são os elementos preponderantes, uma boa conversa, um alerta e o pedido para que evite ou esfrie uma determinada relação deve ser suficiente, na maioria dos casos.
Foi o que ocorreu: Essa mãe tinha uma boa relação com o filho (o que não significa dizer que nunca ocorreram conflitos entre eles): os dois conversaram e ela contou o que ficara sabendo e de que forma; falou também do medo que sentia de o menino ser preso um dia e ele, por estar junto no momento, ser preso também; mostrou-lhe o que significa “ser fichado” na polícia em termos pessoais e profissionais; levantou ainda a possibilidade de, numa situação de aperto, o colega pedir (ou até esconder) drogas na casa deles, etc. Não foi uma conversa fácil – mesmo com o bom relacionamento que havia. Ao final, ela ouviu do filho a afirmativa convicta de que jamais se envolveria com drogas. Ainda assim, essa mãe corajosa (hoje contrariar os filhos está se tornando um ato de coragem...) pediu-lhe que não trouxesse mais o colega a casa deles e vice-versa. De início, ela queria um rompimento definitivo, mas deixou-se convencer pelos argumentos do filho de que isso seria muito difícil de cumprir por serem da mesma escola, ter amigos em comum etc. Ao abrir mão da exclusão que o filho temia assumir, acertando apenas um esfriamento e gradual distanciamento do amigo, chegaram a um consenso. E tudo se resolveu bem.
O entendimento final, no entanto, só foi possível porque, embora penosa (essas conversas não são nada agradáveis), de fato, mãe e filho, tiveram a possibilidade de fazer suas colocações livremente, apresentando um ao outro seus pontos de vista com fran¬queza e confiança mútua.
Nem sempre, porém, os filhos aceitam o que os pais ponderam, ainda que exista respeito e diálogo. Mas é possível, vencer as dificuldades desde que se deixe falar o coração, e que esse falar com a alma, tenha sido constante e começado cedo. É verdade também que, apenas com amor, não se soluciona tudo. Há situações delicadas que demandam argumentos fundamentados, que permitam ao jovem perceber solidez e consistência no que lhe dizem.
Quanto mais nossos jovens participarem e discutirem as decisões que os envolvem e à família, mais rapidamente se tornarão aptos a assumirem a vida adulta, capacitando-se a gerir adequa¬damente seu próprio destino.
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(*) Filósofa, Mestre em Educação e Escritora.