Crescendo com Dinheiro (I)Prof. Tania Zagury Jun/07
Muitos pais percebem que seus filhos não têm noção do valor do dinheiro. Melhor dizendo, as crianças não sabem o que representa comprar um carro, um brinquedo eletrônico ou uma fruta na feira. Não têm noção da diferença quantitativa desses bens. Especialmente as que pertencem a famílias com alto poder aquisitivo, não têm nem mesmo qualquer idéia da origem desses bens de que usufruem com tanta facilidade. Tem pai que me diz: “meu filho pensa que eu sou um banco” ou ainda “minha filha acha tão normal falar em viajar para Disney, como comprar uma roupa nova para a festinha da amiga”.
Existem muitas formas pelas quais os pais podem tornar seus filhos mais conscientes do processo produtivo; trocando em miúdos, cabe aos pais ensinar aos filhos como e de onde surge o dinheiro que eles vêem na carteira do papai, na gaveta do escritório ou na bolsa da mamãe. É fundamental desenvolver desde cedo o conceito de um processo importante e saudável que se chama TRABALHO.
Uma boa maneira de começar é utilizando a mesada, alternativa eficiente para compor, de forma concreta, a percepção de que dinheiro acaba, não surge magicamente, não é infinito e é preciso produzir/trabalhar para obtê-lo. Quando não são orientadas desde cedo sobre quais as formas de que o homem dispõe para conseguir seu sustento, as crianças podem adquirir uma visão totalmente irrealista da questão.
A mesada, bem administrada, é uma forma importante de trabalhar o conceito fundamental, ético e insubstituível de que as pessoas só DEVEM consumir o que podem adquirir através do seu próprio trabalho (evidentemente, para efeito desse artigo, não estamos considerando aspectos sociais da questão, nem problemas de desemprego, má distribuição de renda, etc. O enfoque é meramente educacional). Claro está que, num primeiro momento, “o trabalho” ainda não existirá de fato, no entanto, a instituição de uma quantia mensal de que a criança poderá dispor, com total liberdade de uso, é um primeiro passo, um exercício importante no desenvolvimento da organização, administração e operacionalização de vontades, desejos e responsabilidade.
De acordo com a idade, o valor poderá ir aumentando, assim como os objetivos de sua utilização. O ideal é começar cedo, logo que a criança vai para a escola e começa a ter acesso às lanchonetes escolares. Por volta de quatro, cinco anos, por exemplo. É bem mais prudente começar usando a semanada já que, nesta fase, um mês é tempo muito longo, muito abstrato, para a criança administrar. Depois que ela estiver utilizando adequadamente a semanada, lá pelos sete anos, pode-se começar a utilizar a mesada. É muito importante que fiquem bem estabelecidas “para que coisas” aquele dinheiro está destinado: se inclui o lanche ou só um complemento do lanche, se é somente para comprar balas, revistas etc. sem qualquer outro compromisso, ou ainda, se servirá também para comprar um presentinho para a vovó ou um amiguinho. O importante é sempre se comunicar bem e claramente com a criança, para que não haja qualquer dúvida sobre a destinação do dinheiro que está recebendo. Caso contrário, ela poderá tranqüilamente comprar dois CDs maravilhosos e irresistíveis e ficar sem um tostão para o lanche...
É bom saber que, quase em todos os casos, com quase todas as crianças, sempre poderá ocorrer alguma falha, isto é, sobrar mês e faltar dinheiro, especialmente no início do processo. É natural e admissível e, lembrando que estamos mesmo em fase de aprendizado, nada de castigo - apenas orientação.
Nos casos de gastadores descontrolados, pode-se admitir por uma ou duas vezes, repor a quantia, mas, a partir daí, o ideal é não dar nada a mais do que o combinado até o dia da próxima mesada. Caso contrário, nossos filhos estarão aprendendo que, de alguma maneira mágica, de uma carteira, de uma gaveta, da bolsa da mamãe, sempre aparecerá dinheiro. Atenção: pode parecer que é uma coisa simples e até engraçada, mas não! Amanhã pode significar o direito de abrir sua bolsa e pegar todo o dinheiro que quiser ou até a bolsa de um desconhecido ...
Se lidar com dinheiro é difícil para muitos adultos, o que dirá para uma criança cheia de desejos, sonhos, vontades e uma televisão sedutora, incentivando todos a comprar, comprar, comprar a mais não poder... Em um mundo materialista, individualista e com tantos exemplos de corrupção, apropriação indébita e que coloca as coisas materiais acima de tudo, torna-se ainda mais importante trabalhar o conceito de produtividade com nossos jovens. É muito, mas muito importante mesmo, que eles compreendam – e assimilem – a idéia de que trabalho é prazer. E que é do prazer de trabalhar – e trabalhar bem, que o homem provê o seu sustento e até algumas coisinhas mais, que dão prazer e não representam pecado algum, como uma roupa bonita, um brinquedo ou um livro novo. E isso só se consegue começando desde cedo a orientá-los e, principalmente, dando-lhes o nosso exemplo. Pais ou mães que vivem reclamando do trabalho, do pouco de recompensa que obtêm pelos seus esforços, ou que rezam uma missa toda sexta-feira – porque amanhã é sábado... - não sei se conseguirão que seus filhos achem uma coisa positiva trabalhar...
O importante é que eles aprendam a lutar pelo que desejam obter, mas sempre através do trabalho e especialmente do trabalho feito com amor e desvelo.