Disciplina e Indisciplina - Causas, consequências e perspectivasProf. Tania Zagury
Ago/07

Ser professor nunca foi tarefa simples. A disciplina, por exemplo, parece ter-se tornado particularmente problemática, aliás, um dos maiores desafios atuais da prática docente. Vejamos por quê.
O caráter é o aspecto da personalidade que não decorre apenas da herança genética, embora seja por ela condicionada. Segundo algumas teorias psicológicas, se as reações de caráter (adquiridas) se opuserem às tendências da personalidade (inatas) poderão tornar a pessoa angustiada e ansiosa. Esse conhecimento, recentemente adquirido por pais e professores, infelizmente levou a interpretações equivocadas, que terminaram desembocando na questão dos limites em casa e na escola.
Todo educador precisa ajudar a criança a estruturar o caráter, sem dúvida de acordo com o seu temperamento. Forçar uma criança tímida a se tornar extrovertida pode prejudicar mais o seu equilíbrio do que ajudá-la. O que precisamos fazer é orientá-la a capitalizar positivamente suas características. Se alguns  de seus atributos lhe pode trazer dificuldades, devemos trabalhar para  amenizá-los, sem alterar, no entanto, sua essência. Afinal, um pouco de introspecção é, também, condição positiva. O ideal é promover condições que auxiliem nossos alunos  a ter uma visão positiva de suas características, ao mesmo tempo em que desenvolvem novas formas de interação social.
Tal ação pedagógca deve incluir  pais, irmãos, colegas, a fim de que não exijam o que, para a criança, representaria um  esforço de auto-superação nem sempre possível.
O mesmo se dá em relação a crianças com características opostas – as extrovertidas, irrequietas, voluntariosas ou desconcentradas. Cada uma demanda um tipo de trabalho que encaminhe à superação harmoniosa das idiossincrasias sem, no entanto, descaracterizá-las. Respeitam-se diferenças e peculiaridades, sem dúvida, mas trabalhando no sentido de se alcançar e aprimorar  a socialização, sem destruir a individualidade.
Na prática, implica transitar da idéia de disciplinamento para a de orientação da conduta. Para tanto, devemos estar preparados para enfrentar os que exageram a noção de liberdade individual e pregam a completa abstinência de diretrizes orientadoras, tanto quanto os que se posicionam no extremo oposto, defendendo uma volta às regras rígidas e punições severas para quaisquer atitudes de indisciplina. A meu ver, esses enfoques radicais são, em parte, causa da desorientação de parcela significativa da juventude. Temendo o conflito de gerações, o educador silencia, se omite ou, para demonstrar que é “moderno”, aplaude desmandos e atos inconseqüentes.
Quem discorda mas se retrai  age ou porque está impressionado com o que julga possa “traumatizar” os alunos ou, por comodismo, prefere fechar os olhos à realidade, aceitando como inevitáveis os desacertos que ocorrem diariamente.
Sem esse tipo de trabalho orientador, crianças e jovens entregam-se aos impulsos do hedonismo e do imediatismo: rompem os padrões vigentes e tentam criar uma realidade na qual a ausência de compromissos - com o outro e a sociedade -  tornam-se a tônica.
Se por  parte dos adultos há insegurança, comodismo ou desejo de ser considerado liberal, por parte dos jovens vários motivos explicam condutas inadequadas ou anti-sociais. Muitos julgam que se opondo às normas sociais estão utilizando uma forma de protesto ou a maneira de encontrarem o próprio ego. Outros, desamparados num mundo violento e desigual, criado pela sociedade pós-moderna e, percebendo a própria incapacidade para enfrentá-lo, aderem aos demais. O triste, porém, é que, uns e outros, não se realizam na marginalização, tanto assim que alguns se refugiam no álcool, nas drogas, nos excessos sexuais, nos fanatismos religiosos ou políticos. Outros chegam à depressão ou ao suicídio.
Se o jovem deseja liberdade, antes de tudo, quer amor e orientação. Quando sente que a orientação que lhe é dada pauta-se pelo afeto,  e que os limites não são disfarces para o autoritarismo, aceitam-nos e aderem, sentindo-se protegidos -  e não subjugados. São os limites e as regras sociais que nos protegem de atos irrefletidos e propiciam sensibilidade e empatia.
A vida em comum exige que respeitemos leis e normas -  mas, especialmente, o outro. Precisamos crer no princípio de que é possível sim, através de uma atitude afirmativa, aprimorar o que as novas gerações têm de positivo, minimizando os traços que impedem a humanização da sociedade.
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