Explicando o Inexplicável aos filhosProf. Tania Zagury
Nov/07

Quem tem filhos sabe (e teme!) que, cedo ou tarde (de preferência, tarde!), eles nos perguntarão sobre os terríveis atos de violência que vêm ocorrendo atualmente.
Por mais controle que tenham, por mais que tentem evitar que os filhos assistam a programas desaconselháveis e noticiários (que detalham e repetem à exaustão noticias sobre guerras, mortes, assaltos e assassinatos), é quase inevitável que, uma noite qualquer, uma criança acorde e, chegando inesperadamente à sala, assista a uma reportagem chocante que, certamente, suscitará perguntas difíceis de serem respondidas. Afinal, como explicar o inexplicável? Pais que matam filhos, jovens que matam pais ou avós, homens que matam crianças... Há explicação plausível, aceitável? Não, não há nada que possa ser dito que não soe como dúvida ou desculpa não convincente. Adultos que somos, não temos respostas – só hipóteses.
Quanto mais amamos os filhos mais desejamos evitar que sofram ou se sintam inseguros e desprotegidos. Mas, pergunto, quem pode explicar, com absoluta segurança, a prepotência, o roubo, a apropriação indébita, a selvageria de homens-meninos que matam crianças ou a irracionalidade dos homens-bomba? Como criar filhos emocionalmente saudáveis num mundo em que a loucura parece ser a regra? Como dar segurança se não a temos? Como criá-los para confiar e amar seus semelhantes se temos que preveni-los "contra estranhos" (não fale com quem não conhece, não aceite balas, bombons, bebida – nada – de desconhecidos!); recomendar cuidado antes de entrar em casa (veja se não tem ninguém suspeito antes) e alertá-los para o uso adequado (restrito) da Internet, telefone, interfone etc.?
Se por um lado precisamos mostrar-lhes a realidade para que não cresçam iludidos e despreparados para a vida, por outro não podemos apresentar-lhes o mundo com fatalismo e derrota, porque é essencial que eles não percam a esperança num futuro melhor. Torna-se, pois necessário, começarmos, nós próprios, a olhar de outra forma para o que vem ocorrendo. E ocorre que são os fatos chocantes os que atraem mais leitores. A norma não é notícia. O que foge a ela, sim. De forma que, pela maciça quantidade diária de tragédias que a mídia expõe, acabamos com o olhar torto: não conseguimos mais acreditar que a maioria dos homens trabalha em paz e pela paz, com afinco e esforço. Não conseguimos enxergar nem ver os milhares, milhões, de seres humanos que têm a honestidade intrínseca (ética) que os impele para o trabalho diário e honesto, ainda que em troca do nosso mísero salário mínimo. É essa mesma força interna que faz com que professores enfrentem as dificuldades quase intransponíveis da carreira sem desistir e médicos, em hospitais desprovidos, não desistam de instilar vida e saúde no corpo de quem, muitas vezes, não quer mais vida nem luta.
Enquanto os íntegros continuarem firmes, e, apesar de tudo o que vem ocorrendo, não se deixarem corromper ou contaminar, a ação educativa junto às novas gerações ainda será passível de sucesso. Mas, se os que educam perderem a capacidade de luta, aí realmente nada terão a dizer aos filhos a não ser "cuidado, o mundo (inteiro) é mau". Precisamos lembrar que "mundo", "homem" – todas as generalizações – são abstrações. O que existe é cada homem: milhões de "individualidades" que, em conjunto, irão constituir o mundo ou o homem.
O que temos que explicar aos nossos queridos quando nos perguntam "por que mataram o menino, pai?" é que existem pessoas de todo o tipo: as generosas, as agressivas, as desequilibradas, as meigas, as determinadas, as arrogantes, as honestas, as corruptas. Que cada um de nós pode ser o que quiser ser: mocinho ou bandido, herói ou vilão, "do bem" ou "do mal". Que depende muito de cada um a forma de reagir ao que nos sucede.
É essencial focar a diversidade do ser humano, assim como a capacidade pessoal de tolerar fracassos ou limitações e a necessidade de aceitar limites (pessoais e sociais).
Convém ponderar também – de acordo com a idade e a maturidade de cada um – que o número de pessoas desonestas, violentas e desequilibradas pode aumentar muito quando a sociedade (leia-se, governantes) deixa de fazer o que lhe cabe. Emprego com remuneração digna, casa, comida, educação, tratamento justo e igualitário para todos diminuem muitíssimo a violência. Corrupção e impunidade, ao contrário, podem fazê-la aumentar geometricamente. Mas essa parte fica para mais tarde, quando eles já estiverem em condição de entender.
Como saber a hora certa? Não se preocupem, eles próprios darão a "dica" (perguntando, por exemplo: porque aquele homem fica sempre aqui na rua, dormindo no chão?). Quando for hora, mostre-lhes que ainda não temos uma justiça de fato "cega", mas que esse dia pode chegar, com a ajuda de cada um dos que lutam pela harmonia entre os homens. E, enquanto esse dia não chega, vá lhes mostrando que, na própria vizinhança, há meninos mais e menos legais, assim como há os agressivos e os meigos. Deixe que eles aprendam a ver diferenças de caráter como sinais da diversidade, mas também como bons referenciais para escolhas. Mostrem-lhes que o mundo e as pessoas são múltiplas, assim como as reações e as condições de vida. E que, tudo isso somado (equipamento emocional, diferenças individuais, capacidade de reagir às frustrações, além da impunidade, corrupção e injustiças sociais), é que faz com que alguns matem e outros lutem honestamente pelo pão de cada dia. Por isso temos criminosos, mas também pessoas íntegras, em todas as classes sociais. Dediquem-se a ensiná-los a escolher os bons.
E o mais importante: não deixe que se apague em seus corações a centelha da esperança. O mundo está feio hoje, mas já foi pior (lembram da Inquisição, das duas Guerras Mundiais, dos senhores feudais, dos sacrifícios humanos em honra aos deuses?). Se a grande maioria ainda se horroriza e chora, se organiza protestos e passeatas, é porque ainda não perdeu, de todo, a fé.
Diga-lhes, finalmente, que o mundo espera por eles - com muito trabalho pela frente, mas o bom trabalho – o que leva à superação das crises, ao crescimento e ao progresso.
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(*) Tania Zagury é Filósofa, Mestre em Educação e Escritora.

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