No restaurante em que costumo almoçar quando estou no meu escritório - aquele almoço rápido e saudável de todo dia -, há um prêmio para os clientes fiéis: a cada dez almoços, um sai de graça. Carimbam sua presença no verso de um cartão a cada passagem pelo caixa. O engraçado é observar como as pessoas, das mais simples às superchiques e mesmo as mais sisudas, não deixam de garantir seu pequeno privilégio... É um prêmio, afinal! E quem é que não gosta de prêmios?
Nas empresas, premiar quem produz mais e melhor é a forma usual e ética de recompensar os que cumprem suas tarefas de forma eficiente e responsável. Funcionários aplicados recebem promoções, aumentos salariais ou cargos de chefia – de acordo com a produtividade, o interesse, a capacidade de realização ou outras competências que sejam consideradas vitais para o crescimento e bom funcionamento da mesma. E, embora, não estejamos ainda vivendo num mundo perfeitamente justo, o mais das vezes quem se dedica é recompensado.
Também nas relações interpessoais, pessoas educadas, atenciosas e leais são premiadas, mas de outra forma: são mais solicitadas, lembradas e convidadas para todo tipo de eventos. Enfim, recebem demonstrações de apreço pelas atitudes que têm com os amigos.
E, embora esteja ficando difícil encontrar o tal “espírito esportivo” (diante de certos fatos recentes, o velho jargão o importante não é ganhar, é competir parece anacrônico e sem sentido), no mundo dos esportes também se premiam atletas com melhores desempenhos. “Melhor jogador de futebol do mundo” o Brasil já teve vários. Já houve até quem declarasse que realizar a Copa do Mundo de futebol no Brasil deveria ser ponto pacífico, tanto espetáculo bonito nossos atletas propiciaram a expectadores em todo o mundo... Sem falar, evidentemente, nos altíssimos salários que demonstram a valorização do experto.
Educadores e psicólogos concordam e estimulam as famílias a premiar o bom comportamento, como forma essencial de conseguir adesão de crianças e jovens à causa da cidadania e civilidade.
E, ao que se sabe, essas recompensas nunca fizeram mal a ninguém Pelo contrário, todos nos orgulhamos de nossos troféus...
Por que será, no entanto, que, na escola, a premiação foi praticamente banida? Se de fato a escola moderna deve, o mais possível, reproduzir a vida, e na vida, quem se dedica é recompensado, porque, a partir de certo momento, intramuros escolares, premiar passou a ser desaconselhado? Segundo alguns teóricos, quando se premia determinado aluno, os demais são automaticamente, digamos, “punidos”. Parte-se da idéia de que, afinal, todos se esforçam (o que a prática docente desmente), e, mesmo que em menor proporção e à sua moda, também teriam progredido. Fariam jus, portanto, também eles, a prêmios. Teme-se que se tornem desmotivados ou com baixa auto-estima caso seus esforços não sejam reconhecidos. Esquecem os que defendem essa idéia que infelizmente na vida real esses jovens serão continuamente ejetados de seus empregos, caso não apresentem produtividade mínima. Isso se conseguirem um emprego. E ninguém vai se preocupar com a auto-estima deles.
Não deveríamos, portanto, preparar nossos alunos para a vida lá fora? Por que será que o que ocorre “na vida real” não encontra correspondência na vida escolar? Não discordo de que há certo fundamento no receio de desestimular os que nunca são premiados. Mas isso só ocorre quando se premia apenas quem alcança o primeiro lugar, a maior nota ou o melhor conceito. Isto é, caso se entenda prêmio apenas como uma medalha a ser conferida ou um nome a ser destacado num quadro de honra, distinguindo apenas um ou dois, portanto.
Quando adotamos formas mais generosas de recompensar esforços, até uma palavra elogiosa, uma frase aposta num caderno ou um cumprimento em público são válidos (desde que, claro, referenciados por resultados concretos). Dessa forma muitos serão incentivados. E isso aumenta o interesse e o amor-próprio, gerando um ciclo positivo, que se auto-renova.
Num momento em que a grande preocupação dos educadores se volta para a crescente desmotivação do alunado em geral, para o descompromisso com a aprendizagem e o saber, vale a pena ressaltar progressos reais (premiar não é isso mesmo, afinal?). Além disso, dessa maneira, os alunos que não se esforçaram perceberão que precisam se empenhar mais, sem contar o fato de que é dessa forma realmente que, na vida, se conquistam espaços positivos - com esforço.
A cada dia me convenço mais da necessidade de os jovens perceberem que, ainda que lhes propiciemos excelentes aulas, didaticamente perfeitas (sei que, em muitos casos, ainda estamos longe disso), não lograrão êxito (traduzido no caso em aprendizagem) se não participarem efetivamente do processo. E isso significa, trocando em miúdos, estudar, fazer as tarefas, prestar atenção etc. Também não lhes fará mal algum, pelo contrário, saber que, sem “suar a camisa” um pouquinho que seja, não serão premiados (não aprenderão, não serão aprovados, elogiados, nem terão destaque positivo).
Está mais do que na hora de fazermos os jovens compreenderem que, se não foram eles os premiados, em vez de amargurarem inveja ou despeito por quem o foi, o que lhes trará os resultados desejados é uma autocrítica consciente e mais empenho e dedicação na próxima vez. Talvez esteja mesmo na hora de, em vez de abolirmos prêmios e institucionalizarmos a progressão continuada, prepararmos nossos jovens para olharem de frente para o seu próprio desempenho, encarando a vida como ela é de verdade.
_______________________________________________