A sexta série chegou: problemas à vista?Prof. Tania Zagury Nov/08
Quinta série terminando, o filhote indo bem, que coisa boa! Vai passar para a sexta série... Aí, começam novas preocupações, afinal, já ouvimos tanta coisa a respeito! Muda a estrutura do currículo, aumenta o número de professores, mais matérias, conteúdos mais difíceis! As coisas não serão mais as mesmas! Pronto, os pais têm mais um fantasma para assombrá-los!
Será que há mesmo motivo para tanta preocupação? Em parte sim, em parte não. Alguns fatores, sem dúvida, precisam ser considerados.
Da 1ª a 5ª séries do Ensino Fundamental a criança tem um professor apenas, a famosa “tia”, em tese uma “substituta” da mãe - carinhosa, atenta, que conhece cada um de seus alunos em todos os aspectos. Em algumas escolas, visando a prevenir problemas, a partir da 2ª ou 3ª séries são designados dois professores ou até mais, em alguns casos. O objetivo é familiarizar a criança desde logo com vários professores e suas formas diferentes de trabalhar. De qualquer modo, nas primeiras séries, a relação é estreita – não só o aluno conhece bem seus professores, como também os docentes podem identificar peculiaridades, competências e dificuldades de cada um, já que têm apenas cerca de 35 alunos para acompanhar durante todo o ano letivo, além de permanecerem várias horas diariamente com a classe. A partir da 6ª, porém, o número aumenta para cerca de nove, às vezes mais.
Outro motivo de preocupação para os pais seria a mudança na estrutura do currículo. De primeira a quarta, as matérias devem ser trabalhadas integradamente, em atividades conjugadas, com grande participação das crianças. Não deve haver preocupação em dividir “tempos de aulas” para Matemática, Português ou Ciências. Convém salientar, porém, que poucas escolas trabalham realmente dessa forma. Na maioria há atividades separadas de acordo com a “matéria”. Certo ou errado metodologicamente falando, fato é que a mudança de estrutura curricular no segundo segmento do Ensino fundamental torna-se bem menos “dramática” na prática. Em grande parte os alunos já estão acostumados com o professor anunciando “peguem o caderno de matemática”... ou “agora, vamos passar para a aula de Redação”. Não é nosso objetivo aqui discutir o que causa esse distanciamento entre teoria e prática. O que interessa é mostrar que, no que se refere à mudança de estrutura curricular, os alunos sentem pouca diferença, não existindo, portanto, razão para temer a mudança de modelo curricular ainda que seja por essa razão.
O que poderia talvez gerar ainda alguma apreensão seria o fato de que alguns docentes trazem – por má compreensão didática ou por formação inadequada - certo resquício de antigas metodologias de ensino, nas quais atemorizar alunos era prática freqüente. Eventualmente podemos, portanto, ainda nos deparar com docentes que se apressam a prevenir os alunos, nos primeiros dias de aula da 6ª série, que “primário é uma coisa, ginásio é outra” ou “agora as coisas vão ser diferentes – tão pensando que sou a tia?” ou “daqui para frente, tudo vai ser diferente” (com licença do Roberto e Erasmo Carlos). Um período de adaptação é natural e necessário prover, o que demanda ao menos certo acolhimento por parte dos professores. Ameaçar, não; adaptar e compreender, isso sim, resolve.
Por outro lado e a bem da verdade, todos esses problemas se tornam irrelevantes se o ensino é de qualidade realmente. Um professor moderno e consciente conhece as atuais teorias de aprendizagem, e, portanto, não ameaça seus alunos, como forma de “prevenção”, jamais ignora suas dificuldades, embora sejamos obrigados a encarar o fato de que é complicado, nesse nível de ensino, conhecer bem a todos. Quem trabalha da 6ª série em diante tem tantas turmas que, em geral, assume trabalhar com cerca de quatrocentos alunos a cada ano, o que dificulta até a simples memorização de seus nomes e despersonaliza a relação. É a triste realidade de quem precisa fazer frente aos compromissos financeiros com o salário que percebem os profissionais de Educação.
Um pouquinho de sensibilidade, no entanto, pode resolver ou ao menos minimizar essa dificuldade. Ser afetuoso e gentil no trato; assumir que não conhece bem os alunos, mas, por outro lado, encontrar formas de se comunicar, sem ferir sensibilidades e sem massificar. Quando se está realmente interessado, o aluno percebe: pela qualidade das aulas; pela forma pela qual recebe a criança que lhe dirige a palavra ou tem uma dúvida, pela adequação das propostas de trabalho; pela justeza da avaliação etc.
Essencial é não problematizar demais. Há sim, mudanças na passagem do primeiro para o segundo ciclo do Ensino Fundamental, porém pais e professores, trabalhando de forma integrada, podem ajudar muitíssimo a criança nesse período de adaptação, mas sem muito estresse, sem alimentar mitos e medos. O jovem e a criança têm bem mais capacidade de resolução de problemas e de integração a novos ambientes e situações do que se pensa em tempos tão freudianos. Na verdade, eles têm toda a condição de enfrentar tais mudanças. Estranhar um pouco no início é natural, mas nada que não seja superável em poucos dias ou semanas, desde que família e escola estejam atentas às dificuldades e façam um trabalho adequado e afetuoso.