Benefícios e Perigos do RelativismoProf. Tania Zagury Fev/09
Há dias, li horrorizada que uma jovem de 13 anos pagou um colega para matar a mãe a facadas. Há algum tempo nos consternamos com a Susane, com o neto que matou a avó e com o menino que atirou em vários colegas que o chamavam de “gordo”. Não são os únicos nem talvez os últimos. A pergunta de todos é: “O que está acontecendo? Teremos daqui para frente, que temer nossos filhos? Qualquer contrariedade pode levar uma pessoa a matar a outra?” Sem querer, num curto artigo, analisar tema tão complexo, decidi-me sobre um ponto que considero fundamental.
Viver, há poucas décadas, quando os conceitos morais eram inflexíveis, não era nada fácil. Qualquer desvio do que a sociedade considerava “andar na linha” podia condenar o indivíduo, simplesmente porque agia de forma diferente da maioria. O dogmatismo impedia a reflexão livre sobre o novo. “Diferente” era sinônimo de “mau e perigoso”.
Na minha infância ouvíamos, como argumento de convencimento, a famosa expressão “o que é que os vizinhos vão dizer?”. Tentar mudar pensamentos numa época de inflexibilidade e preconceito era coisa só para os mais audazes. A rigidez intelectual vigente muitas vezes condenava os indivíduos à infelicidade. Pessoas de classes econômicas diferentes não podiam se casar, por exemplo. Era preciso coragem para enfrentar a crítica social. A mulher separada tornava-se imediatamente “desfrutável”. O homem, perigoso conquistador. Depressão era “falta de força de vontade”. Enfim, existiam condutas e, mais grave, estruturas de pensamento que uma pessoa “de bem” deveria seguir – sem questionar - para ser aceita na sociedade.
Felizmente evoluímos. Vivemos, hoje, uma época diferente. No Ocidente, grande parte das nações libertou-se da visão maniqueísta e reducionista que geriu o mundo até cerca da metade do século XX. Muitos já compreenderam que não se deve julgar o outro pela aparência, situação social ou credos. Os atos é que devem contar. A tolerância e o respeito mútuo ganharam espaço contra o dogmatismo e a rigidez. O respeito à diversidade de religiões, raça e pensamento é garantido na constituição de vários países com perfil democrático. A sociedade tornou-se menos hipócrita.
É bem verdade, existem ainda os que não aceitam ouvir idéias que difiram minimamente das suas e que consideram “errados” todos os que não compartilham seus pensamentos e ideais. Mas, que há uma crescente relativização de conceitos, um sentimento de liberdade intelectual, isso é inegável. Respeitados os direitos dos outros, as pessoas podem escolher seu jeito de viver, vestir, pensar. É auspicioso viver num mundo que sentimos caminhar, ainda que de forma lenta, não-harmônica nem linear, para a convivência pacífica entre pessoas e grupos os mais diversos. Ainda que seja difícil ter esperanças num mundo melhor no delicado momento político mundial em que vivemos, é preciso crer que o equilíbrio e o respeito ao outro preponderarão sobre a irracionalidade e a violência.
Cumpre, porém, fazer uma distinção: direito à liberdade de expressão, de pensamento à percepção própria do mundo é coisa bem diferente de relativização absoluta.
O relativismo pode transformar-se em sério risco à segurança e ao direito individual. Basta que, a partir da idéia de que devemos (e, sem dúvida, devemos) respeitar as idéias e os motivos de cada um, chegue-se ao paroxismo de considerar que “tudo é relativo”. A concepção de que um fato tem várias interpretações foi um importante avanço. Se levada ao extremo, porém, pode conduzir à idéia de que todos podem agir sempre de acordo com o “seu jeito” de ver e pensar, independente das leis e das regras sociais. O perigo começa quando se considera que todas as versões de um fato são igualmente válidas. É correto e necessário que todos tenham preservado seu direito de expressão e interpretação. Coisa bem diversa é afirmar que a verdade, portanto, não existe. As interpretações e percepções são diversas. O fato, não. Há que se distinguir o fato, da sua percepção ou interpretação.
É tênue o limite entre o direito à liberdade pessoal e a usurpação do direito do outro... Assim, enquanto uma pessoa defende o direito de se divertir ou de amar ela o tem tão somente até o momento em que o “seu divertir-se” ou o seu “amar” não resulte, por exemplo, no assassinato de índios que dormem nas ruas ou de pais que não aprovam um determinado namorado.
O relativismo é positivo, o relativismo absoluto, não. É maravilhoso viver numa sociedade múltipla. No entanto, se essa postura progressista levar à idéia de que “tudo é válido”, regrediremos socialmente. Existem princípios básicos que não podem ser relativizados. Não matar, não roubar, por exemplo. Dostoievsky escreveu, há muitos anos: “Se Deus não existe, então tudo é permitido”. O ser humano precisa de algumas regras, certezas e valores para poder viver minimamente bem em sociedade. Se tudo é relativo, tudo terá que ser aceito.
Se o neto matou a avó, se a filha matou a mãe, não podem ser isentados da responsabilidade irreversível de ter tirado vidas. Mataram. Este é o fato. A discussão sobre as causas é outra questão, referente à qualidade da pena a ser imputada. Se um jovem dirige sem carteira e é surpreendido numa blitz, não adianta o pai dizer “mas ele guia melhor que muito adulto...” Pode até ser verdade, mas não elimina o ato ilegal. A análise das atenuantes ou das condições específicas que levaram à prática desse ou daquele ato não podem obscurecer nem desmentir a realidade do fato.
É importante que uma questão seja analisada sob todos os ângulos, mas sem que se perca de vista os direitos fundamentais de toda a humanidade. Em nome de uma pseudoliberdade pode-se paradoxalmente tirar a liberdade, a segurança e os direitos da pessoa, duramente conquistados.