E-mail, o retardador da comunicaçãoProf. Tania Zagury
Abr/09

A capacidade que o homem tem de distorcer usos é incrível. A cada nova descoberta científica ou tecnológica o ser humano se supera nesse estranho mister. Vejamos, por exemplo, o e-mail: prometia tornar-se a mais rápida e eficiente forma de comunicação interpessoal já imaginada. Correio tradicional e telefone fixo que, há algumas décadas constituíram progressos notáveis, tornaram-se risíveis frente à instantaneidade do correio eletrônico.
O que ocorreu, no entanto? Tornou-se o mais desconcertante limitador da comunicação. Se alguém não captou a mensagem, esclareço: há coisa mais estapafúrdia do que pessoas que trabalham num mesmo prédio, às vezes no mesmo andar, passarem e-mails uns para os outros para definir o horário da próxima reunião de equipe, quando bastaria levantar, dar cinco passos e falar diretamente com os colegas? Sem considerar o aumento do sedentarismo, e sem também pesar a falta que faz o diálogo face a face, consideremos apenas o quanto se alonga qualquer trivial processo decisório. Tem gente hoje que gasta talvez mais tempo com e-mails do que produzindo! Por exemplo: recebo pela manhã, um correio eletrônico solicitando uma palestra no dia tal. Obedecendo ao primeiro mandamento do e-mail, respondo de imediato, informando que não tenho disponibilidade na data, mas tenho em tais outras. Ocorre que nesse pequeno meio-tempo, meu interlocutor virtual já está respondendo e-mail de outras pessoas e quando me retorna, horas mais tarde, em novo e-mail, sou eu quem pode não estar mais lendo e-mails... Decisões que levariam dois minutos por telefone, hoje levam três dias para serem finalizadas... Graças à rapidez da internet!
Já tentei de todas as formas fazer os apaixonados pelo correio virtual lembrarem que, por telefone, algumas coisas são mais diretas e, portanto, em geral mais eficientes. Em vão... Também não funciona eu telefonar: sou, em geral, atendida por uma voz que me informa que, no momento, fulano não pode atender (estará mesmo em reunião ou respondendo e-mails? pondero com meus botões). Posso também ser enfaticamente informada de que “não está na sala”. Na era da comunicação, ninguém pensa em levantar (implica largar computador e e-mails...) e ir ver se o indivíduo em questão está na sala ao lado ou no corredor, por exemplo. Mesmo em empresas que funcionam com boxes que permitem visualizar todo o andar com um simples recuo de sua cadeira deslizante, insistem em informar “fulano não está na sala”...
Exagero? Creio que não e eficiência zero. Sem considerar as mensagens instantâneas "que não chegam". Suponho que, em algum lugar, numa distante galáxia, um planeta qualquer deve estar entupido de mensagens inexplicavelmente perdidas.
Poderia falar sobre outras maravilhas da moderna tecnologia distorcida, mas cito somente mais uma: o telefone celular, atual insuperável paixão humana. Há menos de dez anos vivíamos felizes quando tínhamos, em casa, um telefone fixo. Sobreviver hoje por dois minutos sem o celular parece impossível ou provoca sérios danos emocionais em seus donos... Aumentam as pressões contra professores desavisados quando têm a audácia de “guardar” o celular de algum aluno-adito-de-celular, tentando fazê-lo lembrar a que veio à escola; aviões ainda taxiando na pista vêem instantaneamente quase a totalidade dos passageiros (ainda que sobejamente avisados do risco de interferência e sendo proibido), com sua terceira orelha em contato urgente com a casa ou escritório para avisar “daqui a meia hora estou aí!” Fundamental avisar isso! Nem sei como vivíamos antes... E qual pai imaginaria, ao comprar um celular para o filho (claro com câmera, gravador e o diabo a quatro), que ele seria utilizado para filmar um colega após ser espancado por um grupo de "amigos da escola" e colocado na internet para todos assistirem? É a versão hi-tec do bullying século XXI.
Antes de se apropriar da alta tecnologia a humanidade precisa, urgentemente, se apropriar de alta dose de bom senso, sensibilidade e ética. Sem o que, até o maior progresso vira retrocesso.

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