A escola profanadaProf. Tania Zagury
Jun/09

Um dia lindo, calmo, céu azul, sem nuvens. Tudo tranqüilo. O mundo parece seguir seu almejado destino de paz.
De repente, a notícia que a todos aterroriza, revolta, choca: um adolescente de classe média alta, entra na escola em que estudava e atira, mata, fere... Sem dó nem piedade. Nos EUA ou no Brasil, em qualquer lugar, corações se afligem. Subitamente todos, - pais, educadores, juristas, psicólogos, sociólogos, leigos, cidadãos comuns - se interrogam: De quem é a culpa? De onde surge tanta tal insanidade? Todos anseiam por explicações. A escola, através dos tempos, sempre foi lugar seguro para nossos filhos. O local do saber, da cultura, da educação, foi profanado. Sofremos todos. Onde, afinal, a segurança? Nos lares, não mais (tantos assaltos e crimes ocorrem no reduto dos mais bem defendidos apartamentos), nos condomínios também não (e as gangues?), nas ruas nem pensar. Agora, parece que perdemos o último baluarte de segurança e paz.
Apontar culpados ou denunciar causas é tarefa complexa, talvez até pretensiosa. Algumas pistas podem ser, porém, levantadas com certa margem de segurança. É preciso, no entanto, ter consciência de que certamente não há uma causa, mas um conjunto de fatores que oportunizam a eclosão destes acontecimentos revoltantes, que aviltam  toda a espécie humana.
Estes fatores podem ser divididos em dois grupos – sociais e individuais.
Dentre as causas sociais, podemos destacar o consumismo exacerbado, a competitividade, o individualismo, a má distribuição de renda, a crise ética, a impunidade e a corrupção, o fácil acesso da população a armas, o crescente desemprego, o seriíssimo problema das drogas - só para citar alguns.
Com esses ingredientes, a cada dia, nossa sociedade torna-se mais e mais violenta. Mas não são apenas os assaltos, estupros e assassinatos que acontecem diariamente e são exaustivamente divulgados pela mídia, que preocupam. Outra forma de violência, poucas vezes percebida pela maioria, é transmitida subliminarmente. Desde programas humorísticos, nos quais o riso é provocado humilhando-se o mais fraco, o negro, o homossexual, o pobre ou o portador de deficiências físicas, até desenhos animados, onde a agressão e a falta de amor ao próximo são a tônica. Estas mensagens repetidas exaustivamente, aliadas aos noticiários sensacionalistas, em que guerra, sofrimento e morte são focalizadas com detalhes terríveis, somadas ao hiper-realismo da cinematografia de hoje - tudo isso junto - pode produzir nas crianças e jovens em formação (expectadores que são de horas e horas de violência desde os mais tenros anos) uma gradual perda da sensibilidade e da capacidade de se indignar -  fundamental para o desenvolvimento da empatia e da solidariedade. É como se elas fossem “se acostumando” à crueldade, à truculência, à miséria humana, à degradação, que acaba percebida como incontornável, imutável.
A essa desenssibilização produzida pela exposição à violência, junte-se uma sociedade que estimula o individualismo e a competição, na qual a má distribuição da renda impera e, especialmente, a grave crise ética que assistimos hoje, derivada da impunidade e da corrupção que permeia todos os níveis das instituições sociais, e poderemos começar a compreender melhor o que leva tantos jovens à marginalização, à desesperança, às drogas e atos criminosos. A criança cresce consumista, individualista, insensível, assistindo diariamente a graves denúncias – raramente punidas com o rigor necessário -, que alimentam a desesperança nas instituições sociais, e, o mais grave, acreditando que o mundo tem que ser assim mesmo. O que certamente fortalece a crise ética e a descrença nos valores humanos.
Por outro lado, os aspectos individuais entram nesse panorama da seguinte forma (evidentemente, explicando de maneira simplista): cada pessoa tem, desde o nascimento, um diferente nível de agressividade, e uma forma, também diversa, de interiorizar os fatos que ocorrem a sua volta, tendo algumas um equipamento de percepção mais positivo enquanto outras, interiorizam os eventos de maneira quase sempre negativa. Quer dizer, uma criança pode decodificar uma palavra mais severa que lhe é dirigida (a simples correção de uma atitude que a mãe ou um professor lhe dirija, por exemplo) como falta de amor; outra, na mesma situação, porém com uma percepção mais positiva, poderá interpretá-la como preocupação e afeto. Uma pessoa que, além de já ser naturalmente agressiva, possui uma percepção negativa dos fenômenos que ocorrem a sua volta e que, além do mais, cresce no seio de uma família desatenta, desestruturada e desarmônica, poderá, em determinadas circunstâncias desenvolver um comportamento socialmente patológico. São esses fatores, entre outros, que irão influenciar a constituição da autoestima gerando cidadãos mais ou menos equilibrados emocionalmente.
Além disso, para nossa consternação, algumas modernos estudos dentro da Psiquiatria vem conduzindo à idéia de que existem pessoas que trazem, dentro de si - inato -, o germe da violência (pobre Rousseau...). Se, aliada a esta característica pessoal (caso ela realmente exista) juntarmos os fatores sociais e familiares, acima descritos, compreenderemos por que surgem, em dadas circunstâncias, indivíduos que, em maior ou menor grau, com maior ou menor planejamento, a partir de um evento qualquer, desencadeiam agressões ao outro.
Nesse contexto, a escola, torna-se apenas o local que reflete, como qualquer outro, o que a sociedade propiciou ocasionar. Uma sociedade violenta - que incentiva na sua base ideológica o preconceito, o predomínio dos bens materiais sobre os valores éticos, corrupta, e que deixa impune seus maiores transgressores -, agindo sobre um indivíduo, potencialmente violento, que se sinta de alguma forma preterido ou mal-amado, tem todos os ingredientes necessários para, em um determinado momento, desencadear a barbárie.
Não se pode esperar que nenhuma instituição, escola ou outra qualquer, esteja a salvo da contaminação  do contexto mais amplo, a sociedade. Procurar “culpados” dentro da escola é uma forma simplista e altamente confortável de explicar uma situação tão complexa, onde tantos interesses estão em jogo, e, desta forma, acalmar os ânimos. Culpando a escola, a metodologia de ensino, os professores mal preparados, os currículos anacrônicos – ou tudo isto -, acalma-se a consciência e a ansiedade de muitos. E tudo fica como está.
Ou mudamos os elementos básicos que alicerçam a sociedade atual - que propiciam o surgimento de situações de violência - voltando-nos para os valores que verdadeiramente dão humanidade ao homem – empatia, solidariedade, justiça, honestidade, honra, cooperação, respeito ao outro - ou continuaremos a assistir, assombrados, a atos de vandalismo, agressões e loucura cada vez maiores.









 

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