Escreveu-me mãe aflita, dizendo que não sabe mais o que fazer com a filha que mente, mente e mente... Realmente quando um pai descobre que o filho mente – para ele ou para outros - a primeira sensação é de desapontamento, em geral seguido de agudo sentimento de fracasso. Pais que valorizam a retidão de caráter, a honestidade e a franqueza tendem a sentir abalo e preocupação. Afinal perguntam-se, será que não estamos conseguindo transmitir conceitos tão fundamentais?
A informação tranqüilizadora é que 87% dos jovens não apenas mentem para os pais, como fazem ou já fizeram coisas escondidas deles, dado de estudo de campo que fiz com cerca de 1000 jovens e publicado em livro . Isso não consola, eu sei, mas alivia - nem que seja pelo fato de saber que não se é o único. Na adolescência, especialmente, esse tipo de atitude constitui quase que a regra, especialmente nos dias de hoje.
Para lidar com a mentira é preciso, antes de qualquer coisa, fazer distinção entre mentir, omitir e fantasiar. Verbos que parecem ser sinônimos, mas que de fato não o são.
Omitir significa não contar; fantasiar quer dizer confundir realidade com quimera. Já mentir é escamotear intencionalmente a realidade.
Só de ler esses conceitos simples e sucintos se pode sentir certo alívio no coração.
Quanto menor a criança, mais comumente ela devaneia. Até os quatro anos é difícil, para a maior parte delas, saber onde acaba o sonho e onde começa a realidade. Com o passar do tempo essa dificuldade natural vai sendo substituída por um realismo crescente. Portanto, se o seu filho de nove anos inventa amigos ou irmãos que não existem, diz que escalou o Everest, ou, conta aos amiguinhos viagem que fez a Disney, sem nunca ter lá colocado um único dedinho do pé, pode ficar tranquilo. É pura imaginação, não mentira. Mas como agir? Apenas deixe-o falar e expor seus sonhos – em geral nada prejudiciais – e siga adiante... Bom, né? Preserva a gente de um monte de conflitos desnecessários. Não precisa desmascarar, nem castigar. Só ouvir e sorrir. Depois, se quiser, comente como quem não quer nada: um dia, nós todos vamos juntos para lá. Pronto; está dado seu recado, sem agressões: sei que você não foi ainda, mas adoraria ir, por isso sonha e imagina; então, se pudermos, vamos realizá-lo. Somente se o comportamento se agigantar ou perpetuar é que se deve começar a pensar a respeito. Imaginar irmãos que não existem é comum a filhos únicos, assim como sonhar que é filho único pode ser devaneio de quem tem três irmãos chatinhos a dividir espaços...
Omitir fatos, por outro lado, é coisa que ocorre com frequência, não apenas entre pais e filhos, mas entre amigos, colegas de trabalho ou até entre casais. E é frequente porque nem sempre o que uns consideram importante, tem o mesmo peso para outros. Daí que, muitas vezes, não nos contam alguns fatos porque nem sonhavam que nos pudesse interessar. Portanto, se você percebe que seu filho se esquece de lhe contar coisas que você gostaria de saber, diga isso a ele claramente. Se for algo que lhe pareça muito importante, deixe claro que ele deve sempre lhe contar tal tipo de ocorrências. Agora, se ele não comentou que a tia fulana cortou o cabelo à máquina zero, considere que, quase com certeza, ele achou que isso não era importante relatar. E, cá para nós, era?
Contar ou não determinadas ocorrências tem a ver também com o jeito de ser de cada um. Os mais extrovertidos tendem a comentar tudo que lhes ocorre, os mais fechados não o fazem. E isso não é problema algum. Homens e mulheres diferem bastante também nesse aspecto. Quantas coisas que achamos interessantíssimas, nossos companheiros acham enfadonhas – e viceversa? Também às vezes simplesmente somos nós, pais, que não queremos que os filhos cresçam e tenham vida e vivências próprias e talvez por isso nos sintamos desconfortáveis ao descobrir fatos não compartilhados. O que é normal e compreensível, porque é importante deixá-los “despregarem-se” de nós e isso pode incluir não sabermos mais tudo da vidinha deles...
Resta, portanto, analisarmos a terceira possibilidade: você descobriu que seu filho conscientemente oculta ou distorce fatos. Enfim, mente mesmo. É o que analisaremos no próximo artigo.