Se os pais descobrem que o filho mente, isto é, se a realidade é apresentada de forma diferente do que de fato ocorreu, antes de brigar, vale a pena se fazer algumas interrogações: Rever, por exemplo, se há de fato espaço aberto para o diálogo é um bom começo. Muitas vezes as crianças mentem por medo de “levar bronca” dos pais. O que não significa que se deva – para evitar que os filhos mintam - aprovar atitudes socialmente inadequadas. As crianças, orientados por pais e professores, devem aprender desde cedo a enfrentar consequências de atos equivocados. Chega de isentar as novas gerações de responsabilidades, o que só tem causado danos sociais – e pessoais também. É uma competência que o tempo ensina - desde que os adultos tenham atitudes orientadoras e persistam nelas, porque em educação nada é rápido nem fácil.
Às vezes, é difícil até mesmo compreender essa diferença essencial: Passar a mão na cabeça e aprovar atitudes inadequadas é uma coisa; outra, bem diversa, é mostrar - ainda que com afeto e compreendendo que errar faz parte do processo de aprender - que pessoas de caráter sustentam suas falhas e os efeitos delas, com dignidade, e, por isso mesmo as superam. Mostrar aos jovens que errar é humano, e que não se deve, por medo ou insegurança, mascarar a realidade é um bom exercício de reflexão, que podemos e devemos trabalhar com eles.
Por outro lado é muito salutar levá-los a analisar os aspectos que envolvem uma decisão, treinando-os a pensar antes de agir. Sem dúvida, uma forma excelente de evitar atitudes das quais podemos nos arrepender.
Convém pensar também sobre como reagimos quando os filhos nos contam algo: colocamo-nos lado a lado para ouvi-los ou reagimos intempestivamente, em função de temores e inseguranças pessoais? O amor que os pais sentem pelos filhos e a urgência em protegê-los acabam nos levando, muitas vezes, a reagir com rigor excessivo ou a falar (muito e sem parar) antes que os filhos concluam seus relatos, fazendo com que, por vezes, considerem não nos contar certas coisas, mais prudente. Afinal tem gente que transforma pouca coisa em tormenta braba...
Bem, mas supondo que após essa análise você chegue à conclusão de que, ao menos nesses aspectos, seu filho não tem motivos de queixa. Enfim, nada justifica os receios acima, e que, na realidade, ele está mesmo é tentando mudar a verdade dos fatos de acordo com suas conveniências. Nesse caso é preciso considerar outras variáveis. A primeira delas pode parecer estranha, mas é a pura realidade: nem sempre os pais são culpados de todas as falhas dos filhos! Chegamos a um ponto tal em que sequer imaginamos que os filhos têm personalidade própria, objetivos diversos dos nossos, temores infundados, enfim: equipamento cognitivo e afetivo que nem sempre são apenas respostas ao contexto familiar...
Em outras palavras: nem sempre a mentira é consequência de problemas no relacionamento com os pais. Uma parte do que leva os filhos a mentirem tem a ver também com fatores sociais e pessoais.
Numa sociedade que incentiva, prega e preza o prazer imediato e a liberdade como bens maiores, o mero desejo de sentirem-se independentes (especialmente no que sabem que os pais reprovariam) pode ser suficiente para mentir. O desejo do prazer nas novas gerações vem superando a consciência do dever - e até, por vezes, o respeito devido a pais e autoridades em geral. Por mais que tenham benesses, por mais que respeitemos os seus alardeados direitos, hoje, com o incentivo e o beneplácito da sociedade, se eles querem ir a uma festa e sabem que os pais não vão permitir, com bastante sem cerimônia, inventam que vão dormir na casa de um colega para estudar e, sem culpa, porque quase todas as culpas hoje são dos pais, vão a tal festa. A sociedade não aplaude, mas tolera e de certa forma até incentiva ou ao menos compreende...
Também não é nada incomum o jovem se sentir vítima de pais repressores, que pegam muito no pé, como eles dizem. Daí a mentir, inventar, sair sem permissão ou sem os pais perceberem é um pulo.
Essa conduta se forma também devido à perda progressiva de autoridade por parte dos pais nas últimas décadas e pela falta de sanções - o que compromete a compreensão sobre seus deveres e responsabilidades.
A que conclusão se chega, então? Que não tem jeito? Graças a Deus, não! Mas é uma luta, sem dúvida. Uma luta na qual sairá vencedor o filho cujos pais tenham:
• Segurança do que pretendem;
• Capacidade de resistir às caras e bocas e ao mau-humor dos filhos (especialmente se forem adolescentes, mas não somente);
• Persistência para premiar atitudes positivas;
• Competência para dialogar;
• Equilíbrio para punir de forma justa e equilibrada; e, acima de tudo,
• Coerência entre o que prega e o que faz.
E finalmente, vence também quem for capaz de manter atitudes positivas, afirmativas, amorosas e seguras. Apesar de tudo.