Melhorando o ensino?Prof. Tania Zagury
Fev/10

Quando alguém está doente, muito doente mesmo, não com uma gripezinha qualquer, mas se sentindo assim meio que perto da morte, faz o quê? Corre para o médico! Ou melhor, para o hospital. Não é mesmo? Porque a vida é o mais precioso bem. Porque valorizamos nosso maior bem. E o que queremos receber ao chegar ao hospital? Tratamento de primeiro mundo, médicos de categoria nos examinando – e logo! –, exames de qualquer tipo que se faça necessário à disposição para nosso doutor tirar suas dúvidas e, dessa forma, com o máximo de segurança possível, indicar a solução para o problema! Maravilha! Não é assim? Nossa saúde agradece.
Mas quando se trata de Educação, por que o pior parece ser sempre o melhor? Nossa rede de ensino está agonizante, mas poucos estão levando a sério as reais condições do “paciente”, que já se tornou, há muito, im-paciente... Será que tal situação não está diretamente relacionada com o lugar que a Educação ocupa, dentro da escala de valores da sociedade: sempre entre os últimos?
Analisemos duas medidas recentes: Para resolver o problema do desinteresse dos alunos e do alto número de faltas às aulas, em escolas situadas em áreas de risco a Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro implementou projeto de voluntariado (parece que serão mães, de preferência) na comunidade onde a escola está inserida, para que, em troca de ajuda de custo e grande boa-vontade, mobilizem e suportem afetivamente os jovens, que, em consequência – espera-se - passarão a comparecer às aulas, a estudar mais e melhor. Sem desfazer das enormes possibilidades do amor: é plausível esperar que essas pessoas consigam o que os docentes não conseguiram? E, pensando bem, escola de qualidade se faz assim?
Outra medida, que me despertou tristes interrogações: alunos com problemas de aprendizagem, que, como sabemos não são poucos, terão afinal sua Recuperação Paralela concretizada! Compreenda-se aqui Recuperação Paralela como parte indissociável do processo ensino-aprendizagem, fundamental para o bom desempenho dos alunos, obrigatória desde 1972, por força da atual e da anterior Lei de Diretrizes e Bases), a qual será implementada, pelo projeto, por docentes e por estagiários, alunos dos cursos de formação para o magistério. Também sem menosprezar intenções, pergunto (é só uma pergunta): Será viável supor que um profissional em formação se desincumbirá melhor de tão importante objetivo do que docentes formados, mais preparados e experientes? E, ainda que o projeto se concretize sob supervisão, os estudantes terão mais capacidade de fato para esse trabalho - ou se trata apenas de usar mão-de-obra barata e disponível?
Talvez a resposta se encontre na mesma lógica torta que, até hoje, décadas depois de eu começar a trabalhar como professora na rede pública de ensino, mantém em vigor a estratégia de designar para as turmas mais “difíceis”, professores novatos. Ou talvez seja porque aqui, na terra onde canta o sabiá, educação não é, de fato, importante? Ações revelam mais que discursos. E fala-se muito atualmente em priorizar e resolver a questão da qualidade do ensino brasileiro. Contudo, analisando tais propostas, é possível acreditar realmente que estamos chegando lá?
Para o doente grave, o especialista tarimbado. E para nossos alunos? Não conheço outra profissão que incremente qualidade de resultados, delegando a pessoas não-especializadas (a baixíssimo custo) a resolução de problemas que se agigantam há décadas.
Que ninguém deplore, mais tarde, a perpetuação dos baixos níveis de qualidade no ensino.
 

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