É comum ouvir jovens se queixarem do que consideram "atitudes conservadoras" dos pais. De fato, há situações em que os adultos adotam comportamentos gerados em aprendizagens passadas que acabam se transformando em uma espécie de "segunda pele". Quer dizer, muito do que se aprende nos primeiros anos de vida acaba sendo incorporado ao modo de ser de cada um. Quando adultos, a tendência é repetir modelos adquiridos, sem mais pensar no assunto.
Enquanto os filhos são pequenos, as coisas tendem a caminhar de forma mais ou menos tranqüila, porque a maneira pela qual as crianças veem os pais praticamente as impede de quaisquer críticas não afetivamente contaminadas. Essas regras antes até bem aceitas começam a ser repensadas quando os filhos entram na adolescência. Daí em diante, questionamentos tendem a se tornar constantes, razão porque dentre outras a adolescência é temida pelos pais. Por ser um período de forte antagonismo sem dúvida alguma incomoda.
Os conflitos que surgem podem crescer a ponto de levar ao total desentendimento. A casa, antes harmoniosa, pode se tornar um local de guerra sem trégua, com ruturas irreparáveis. Mas será que precisa ser assim? Será que a desarmonia precisa imperar em toda relação? Creio que não. O caminho para o entendimento é, porém, tortuoso e demanda habilidade - de ambas as partes. É uma dificuldade que pode ser transposta quando realmente se quer conviver em harmonia.
Como seria esse inefável "caminho para o entendimento"? É caminho que se faz inicialmente por quem deseja realmente mudar a situação, porque é isso exatamente que possibilita mudar: o querer verdadeiro de pelo menos uma das partes envolvidas. Ninguém muda se não deseja de fato, se não está convencido de que a mudança é necessária. E isso, em geral, ocorre com quem está incomodado com a situação - nunca com quem está bem ou tranquilo dentro dela.
Se uma pessoa está insatisfeita com determinada atitude de um companheiro, um filho ou um pai e deseja, de coração, melhorar a relação, terá – essa pessoa e ninguém mais – que dar o primeiro passo. É isso que em geral muitos não percebem. Que nem sempre as duas pessoas estão insatisfeitas. Quem está é que terá que mudar. Às vezes até mudar de endereço... A tendência, porém, é achar que o outro é que tem de mudar (e da forma que o incomodado decidiu). Ocorre, porém, que se o outro não estiver, também ele, tão insatisfeito nem estará pensando em mudar. O primeiro passo para a mudança, portanto, é decidir mudar. E só se pode decidir mudar em algo que compete a nós - não aos outros. Daí porque tanto desentendimento...
Em se tratando de pais e filhos, a iniciativa pode partir tanto de um como do outro lado (adolescentes se proclamam diuturnamente maduros e prontos para tudo, por que não para contribuir para a paz familiar?). Quem estiver mais fortemente incomodado é que poderá deflagrar mudanças. Não cabe apenas e tão somente aos pais mudar e aos filhos reclamar, queixar-se aos colegas, choramingar ou ficar, no mínimo, permanentemente de cara feia em casa... É por volta dos doze anos que o ser humano adquire capacidade de análise, dedução e abstração: um jovem pode, portanto, entender o que o está acontecendo em sua vida e no seu entorno, perceber em que momentos e porque o desentendimento se inicia, e pode também tentar solucionar o problema ou mudar um pouco seu comportamento.
Por outro lado, pais que desejam minorar a crise precisam lembrar que, na adolescência, algumas atitudes podem soar como desrespeito (e às vezes são mesmo), mas o que elas revelam é a fragilidade ou a incapacidade de expressar de forma tranquila o que sentem em determinadas situações.
É importante considerar, por outro lado, que, nas últimas quatro décadas, a postura educacional mais liberal gerou espaços para os filhos explicitarem desejos, objetivos e sentimentos que anteriormente era impossível até se supor. Portanto, nada impede que, nos lares onde tal postura é admitida e até incentivada, parta do jovem a iniciativa de solucionar equilibradamente o que lhes incomoda. É preciso dar também, não apenas receber. Se um rapaz de 16 anos, por exemplo, acha que os pais estão desatualizados em relação ao horário em que as boates começam a funcionar e por isso lhe pedem que retorne à casa quando a festa ainda nem bem começou, por que não poderia ele se dirigir – educadamente – aos pais e, de forma não-agressiva, tentar explicar e reivindicar o que deseja? Menosprezamos a capacidade da juventude quando cremos que os jovens são incapazes de ter atitudes positivas. Se podem dialogar construtivamente com colegas por que não na família?
Sintetizando: quem deseja melhorar relacionamentos deve tomar a iniciativa e lutar pelo que deseja sim, mas essa luta pode e deve incluir reflexão, autocrítica e mudanças no mínimo também por parte de quem considera necessária a mudança da relação.