Hora das Refeições – Alegria ou Tormento?Prof. Tania Zagury
Out/06

A questão da alimentação dos filhos tem sido uma grande preocupação das mães. As que trabalham fora se preocupam ainda mais. Talvez isso ocorra pelo fato de o verbo alimentar ser utilizado, com freqüência, como sinônimo de amar. Amamentar é a ação primeira de doação e proteção. Imagens de mulheres em estado de puro deleite amamentando os filhotes  aconchegados ao seio, quentinhos e protegidos, é forma habitual de representar o mais puro ato de amor em nossa sociedade. É compreensível, portanto, que mamães pós-modernas (a maioria das quais fica longe dos filhos oito a dez horas diárias e desde ainda bem pequenos) tentem compensar essa ausência perturbadora, cuidando às vezes “além da conta” dos filhos, quando estão juntos. Mecanismo de compensação que confunde, por vezes, quantidade com qualidade. Parece que quanto mais a criança come, maior o alívio e mais atenuada a culpa que sentem.  Daí para a criança descobrir no ato de comer (sem compreender bem o “porque”) uma insuspeitada arma de barganha é um pulo... Em conseqüência, o que poderia ser um momento de encontro e prazer, acaba se tornando um verdadeiro tormento, repetido a cada refeição. Recebo apelos de mães desesperadas com a confusão que se instalou em suas vidas por não conseguirem perceber a real dimensão da alimentação. Claro que alimentar bem os filhos é fundamental, mas a hora das refeições deve ir além da questão meramente fisiológica, podendo se transformar em ricos encontros de troca afetiva, de forma tal que, no futuro, as crianças deles se recordem com prazer e saudade.   Para sair dessa verdadeira “enrascada”, em primeiro lugar, é preciso ter um número mínimo de informações nutricionais sobre o que importa de fato e, a seguir, adotar medidas práticas imediatas, que ajudem a reverter o quadro. As informações e dúvidas sobre alimentação podem ser facilmente sanadas com uma boa conversa com o pediatra, pessoa ideal para dar orientação embasada e clara sobre a real necessidade alimentar das crianças, que varia bastante de acordo com a fase do desenvolvimento. Essa conversa certamente trará bons frutos. Na maior parte das vezes as pessoas ficam surpresas ao verificarem o quão menor é a necessidade nutricional dos filhos.   Além disso, vale a pena refletir sobre cada um dos itens que se seguem. Acredito que serão de grande valia para a adoção de posturas educacionais que minimizam conflitos e acabam com o tormento da “hora da comida” (diga-se de passagem, para ambas as partes):

  1. Nenhuma criança que tem alimentos à disposição morre de fome; portanto, se seu filho não come tanto quanto você gostaria, provavelmente é porque ele não precisa de tanta comida quanto o seu coração julga.
  2. A criança é muito voltada para o que lhe dá prazer, portanto, não fique admirada pelo fato de que a maioria delas queira comer exatamente o que não é tão saudável nem recomendado – mas simplesmente muito saboroso.
  3. É bom lembrar que nós, adultos, quase todos, também gostamos mais do que engorda, dá dor de barriga ou é “proibido”. E que, se os evitamos (nem todos, na verdade...), é porque, com o passar dos anos, nos conscientizamos da necessidade de uma alimentação balanceada e saudável - em alguns casos, com o passar de muitos anos!
  4. Por outro lado, ter consciência de tudo isso, não implica em abrir mão do papel fundamental de orientadores e formadores de hábitos nos filhos. Somos responsáveis por eles no presente; quanto ao futuro... Bem, quanto ao futuro ninguém pode garantir nada... Mas, pelo menos, teremos conseguido postergar por uns belos anos artérias entupidas, obesidade, diabetes e outras doenças geradas pela ingestão imoderada de açúcar concentrado, excesso de proteínas e/ou gorduras, frituras etc.
  5. Simplesmente acabe ou reduza drasticamente os petiscos ao alcance de mãozinhas fofas (biscoitos, doces, bombons, batatas fritas etc.); são estes, em geral, os principais responsáveis pela inapetência ou pelo estado nutricional inadequado (tanto de crianças quanto de adultos).
  6. Se sua família é daquele tipo que não pode assistir a um programa de TV sem um imenso saco de batatas fritas ou de bombons ao lado, ao menos mantenha esses “deliciosos malvados” longe do alcance das crianças. Um armário com chave ou uma prateleira mais reservada, costuma resolver o problema. Não tendo acesso a todos os “cheetos, balas e biscoitos casadinhos da vida” entre as refeições é quase certo que a comida terá outro sabor (fome é o melhor tempero, diziam nossos avós...);
  7. Agora sem culpas: vez por outra (num domingo, numa saída, num aniversário) uma pequena porção dos temíveis “beliscos” pode ser permitida sem problemas. A criança bem alimentada comerá bem menos do que se forem utilizados como refeições.
  8. Na hora da comida, coloque o prato da criança já composto à mesa, com pequenas porções de cada elemento nutricional importante: arroz, feijão, um pedacinho de carne ou frango, legumes e/ou salada crua e como sobremesa, frutas variadas.
  9. Não faça da refeição uma obrigação, nem deixe que seu filho a chantageie para comer - nada de contar historinhas, fazer aviãozinho ou promessas do tipo “se comer tudinho...”. É importante que ele encare a comida como algo de que necessita e não como elemento de barganha.
  10. Quando a criança der mostras de que não quer comer mais, certifique-se perguntando - com calma e sem ansiedade - se pode retirar o prato; se ela disser que sim, retire. Sem hesitar. E não ofereça nada até a próxima refeição;
  11. Na refeição seguinte, caso tenha comido menos que a metade do que foi oferecido na anterior, prepare o prato com os mesmos nutrimentos do almoço; seguramente agora ela comerá. Para funcionar, no entanto, espere um tempo razoável antes de lhe dar de novo a comida. Não “corra alucinadamente” trazendo-lhe o prato assim que ele disser “estou com fome”, caso isso ocorra uns dez a quinze minutos depois; um espaço mínimo é necessário para que esteja de fato faminto e coma;
  12. Não pense que a estratégia não funcionou se nas duas primeiras semanas as coisas não melhorarem; e não desista! Talvez seu filho esteja testando a sua ansiedade. Aja como se não fizesse diferença ele comer ou não (mesmo que seja difícil!) e num ambiente ameno, sem raivas, insistências ou “broncas”.
  13. Evite as compensações do tipo uma “supermamadeira” enriquecida com maisena ou outros tipos de “cevador de criancinha”, quando ele não tiver comigo tudo que você sonha. Seu filho logo perceberá e - se é disso que ele gosta mais - não aceitará uma refeição balanceada e com os variados nutrientes necessários a um bom hábito alimentar. Atenção: em casos de viroses, infecções etc., a regra não vale – aí a falta de apetite tem outras causas. São momentos em que se pode e deve ser mais flexível para evitar que a criança fique ainda mais debilitada.
  14. Nunca demonstre ansiedade com o “pouco que ele come”, nem comente o assunto quando ele estiver presente ou puder ouvir.
  15. Aos poucos a criança entenderá que comer é uma atividade que satisfaz necessidades e não desejos.
  16. Se ele já está na creche ou na pré-escola, o lanche deve ser nutritivo, mas também atraente e saboroso: um sanduíche natural, por exemplo, e para beber, suco de frutas. Evite refrigerantes, bombons, frituras e balas.

É bom lembrar que os problemas de obesidade, colesterolemia, diabetes e outros ligados à nutrição, têm aumentado muito até entre crianças e jovens. Portanto, essas atitudes não são repressoras, são sim, puro amor, amor de verdade, porque possibilitam crescimento sadio e formação de hábitos adequados. Melhor ainda: aumentam as probabilidades de um futuro mais longo e profícuo para quem tanto amamos.

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