CURRÍCULO NACIONAL ÚNICO, BEM-VINDO!

              Faz pouco, o MEC apresentou a versão preliminar do Currículo Nacional Único. A partir daí várias reportagens foram publicadas em diferentes veículos, a maioria das quais comemorando: enfim, teremos um currículo único! Mas o que muitos não sabem é que, até em torno da década de 1970, o Brasil tinha currículo único. Quando comecei a lecionar, recebíamos do MEC, meus colegas e eu, o que chamávamos de “o lençol”, livreto que, ao ser aberto, se desdobrava em folhas enormes (daí o apelido), e que continha, disciplina por disciplina, série por série, os conteúdos que devíamos desenvolver. Num dado momento, porém, se começou a preconizar a necessidade de cada município definir por si o que ensinar, de forma a que fossem respeitadas as peculiaridades regionais e as características da clientela. E embora alguns especialistas estejam criticando a versão ora apresentada, é bom lembrar que o que chegou mais próximo da atual, foram os Parâmetros Curricu­­lares Nacionais de 1996. Levando-se em conta que mais de 57% dos estudantes de 8 anos não conseguiu superar os dois primeiros níveis de aprendizado em leitura na Avaliação Nacional de Alfabetização (que é feita pelo próprio MEC) e que em Matemática, o percentual foi de 58%, dá para compreender porque o novo documento foi recebido com esperança… Ocorre que utilizar o currículo único, por si só, não resolve o problema dos baixos resultados. Há que haver outras providências também, para que saiamos do limbo em que está a Educação: a qualificação docente e a questão inaceitável da indisciplina, que hoje consome 20% do tempo de cada aula, são duas delas.  Não foi só o Brasil, porém, que demorou a perceber a necessidade de se rever a decisão de adotar ou não o currículo único. A Austrália o fez somente em 2012, e após dois anos de debates! Aqui, a LDB determina que os currículos do ensino fundamental e médio tenham uma base nacional comum, complementada por parte diversificada – para atender especificidades regionais. Trocando em miúdos, o que o currículo único faz é determinar o conjunto mínimo de aprendizagens que todos os alunos precisam adquirir até o final da Educação Básica, por serem indispensáveis à vida e à cidadania plena. São competências, conteúdos e habilidades que os alunos precisam adquirir até o final do Ensino Médio. A partir de então, o Currículo Único foi substituído por documentos que definem os objetivos das séries e áreas de estudo, cabendo aos docentes definirem que conteúdos e atividades serão desenvolvidos para que se atinjam as metas fixadas. Claro que não foi apenas esse fato que determinou a queda da qualidade no ensino, mas seguramente contribuiu bastante, porque, entre outras perdas, um aluno transferido do Amazonas para Minas deixou de ter a garantia da continuidade de antes havia, já que o que se aborda hoje no norte do país, pode não ser necessariamente...

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VOLÚVEIS PAIXÕES

Vamos falar das paixões dos nossos filhos? Daquelas enlouquecidas, que duram duas semanas e que nos deixam loucos também – mas por outras razões. Seu filho lhe conta, animadíssimo, que agora tem jiu-jítsu na escola! E é coisa imperdível! Encantado, você matricula seu atleta, compra uniforme, cria esquemas para ajustar sua rotina. Joia!  O que não se faz por um filho? Ainda mais quando quer algo saudável! Logo hoje em dia, com tanta coisa terrível acontecendo, drogas e nem sei mais o quê, mesmo nas melhores famílias. E seu filho amado lhe pede, com fervor, para fazer esporte! Que maravilha! Claro que você deixa. Choque é perceber o número de vezes que os filhos iniciam e depois desistem do “esporte maneiro” que lhe trouxe gastos extras com matrícula, uniformes, táxis e mensalidades. E a canseira não conta? Per­plexo, você se pergunta: será que ele está fazendo isso para me irritar? Ou será que tem algum problema? Porque, mais uma vez, ele está ali, diante de você, com a­queles olhos brilhantes, cheios de expectativa, porque um novo amor surgiu: aula de sapateado! O que fazer, deixo ou não? E a tralha toda que comprei faz um mês? O que faço com aquilo?  Na infância, e mesmo na adolescência, o interesse por atividades esportivas, culturais e de lazer varia bastante. É normal. Seu filho está descobrindo o mundo. E quanta coisa interessante existe! No passado recente a rua, a calçada e a pracinha eram os locais onde “praticávamos esportes”. Melhor di­zendo: aonde íamos brincar de jogar futebol, vôlei, amarelinha, pega-pega, queimado… Salto em altura era com barbante, que delí­cia! Tudo livre e sem hora! Podia-se começar e dez minutos depois achar entediante, então decidir mudar de brincadeira e mudar de novo cinco minutos depois. Do jeito que quiséssemos. Agora tudo é aula; com professor, horário, duração certa: aula de futebol, de natação, de balé. A gente pulava corda, fazia campeonatos de corrida; em uma hora po­díamos trocar de brincadeira cinco, dez, mil vezes. Dá para compreender por que as crianças de hoje não persistem numa mesma ativi­dade. Por que estão brincando – e é vital para elas. Mas, mesmo compreendendo o ponto de vista da criança, o problema concreto existe: não dá para ficar pagando ma­trícula, deixando uniformes de lado, e comprando tênis especiais a cada quinze dias. O que se deve fazer, além de reconhecer que o mundo hoje é diferente, é estabelecer algumas regras — antes de tudo. Coloque seu filho a par dos gastos que estarão envolvi­dos na decisão. Afinal, tem tênis que custa mais do que um fogão! Faça essa comparação com ele – será muito útil! A seguir, estabeleça um período mínimo, discutido e definido por ambos: por exemplo, três meses de experiência. E faça com que entenda e se comprometa que não vai desistir antes disso. Fechado o trato, não aceite mudança no plano. Não...

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REFORMA OU REMENDO? (Por Tania Zagury / Artigo originalmente publicado na coluna Opinião do jornal O Globo)

Só de ouvir falar em Reforma na Educação me arrepio! Afinal, com mais de quatro décadas de trabalho na área, sou testemunha da história dessa profissão… Uma das primeiras de que recordo, pretendia atender às peculiaridades da cultura do país. Por isso aboliram-se os programas, que eram únicos em todo Brasil, e orientavam professores sobre o que ensinar. Segundo especialistas, eles uniformizavam a educação e atender às características culturais de cada região se fazia necessário. Li que o novo ministro pretende promover reforma que dê ao país um projeto nacional único – que já tivemos e jogamos fora! Vão reativar o que foi banido. Também recordo de outra, que jogou no lixo as cartilhas, odiadas pelos construtivistas. Voltaram a ser usadas, porque o fracasso na alfabetização foi sem par. Pergunto: em que se baseiam as autoridades em suas decisões? Em estudos que mostram o que precisa ser mudado, ou em ideias que lhes são simpáticas? Tantas reformas! E a qualidade do ensino sempre em queda… Outra, mais recente, implantou a Progressão Continuada, exaltada como solução para a repetência na 1ª série. Os docentes a apelidaram, com razão, de Aprovação Automática, porque foi só o que ocorreu. Deu no que deu: hoje não temos tão alto índice de reprovação no Fundamental I, mas a partir da 6ª série, quando a aprovação automática termina, os índices sobem de novo.  Bem que o ministro de então tentou adotar o modelo também de 6ª a 9ª séries. Não conseguiu. O que se fez para resolver o problema foi pressionar os docentes para não reprovarem. Facilitou-se a conclusão da 9ª série – e minou-se mais um pouco a autoestima e a autoridade dos docentes. Teria sido lindo aprovar todo mundo, se não tivesse sido à custa do saber. Era de se esperar, portanto, que reprovação e evasão migrassem para o Ensino Médio – como está ocorrendo. Já se fala, não por outra razão, em “suprimir gorduras” do currículo. Acena-se, de novo, com facilitação. Nem parece que o mercado de trabalho a cada dia, grita e esperneia alto para alertar sobre a crise de qualidade da mão de obra. Nosso trabalhador hoje tem dificuldade até para interpretar manuais de instruções! Assim, temos nos afastado mais e mais da necessária qualidade, essencial para que a massa de brasileiros possa ganhar o pão de cada dia. A reforma pretendida busca suprimir do currículo do Ensino Médio o que o diferencia do Ensino Fundamental: o aprofundamento de conhecimentos. Ensino Fundamental, como o nome diz, é o que dá, ou deveria dar, base! Suprimindo-se conteúdos mais complexos (que estão sendo chamados de “desnecessários”), e estariam provocando a evasão, resolve-se o problema: todos se formam e ficam felizes (e melhoram-se também as estatísticas). Sim, é difícil aprender – especialmente para quem não recebeu a base a que tinha direito.  O que se pretende parece muito com ressuscitar Científico e Clássico...

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MÃE, BRINCA COMIGO?

Muitos pais se queixam de que, com a carga de trabalho que têm, quando chegam a casa à noitinha tudo que querem é descanso… Mas diante dos apelos dos filhos, acabam se sentindo obrigados a brincar com eles, mesmo sem vontade. Esse conflito é natural. Afinal sabemos que a convivência com os filhos é fundamental. O problema é exatamente o fato de que os pais se sentem obrigados a brincar, como uma forma de compensação por ficarem ausentes durante o dia. Não há dúvida de que é bom e importante conviver com os filhos. Momentos em família são fundamentais para aprenderem a valorizar essa que é a instituição base da sociedade. Mas é também um momento de trocas afetivas gostosas e de aprendizagens sociais essenciais para o equilíbrio emocional no futuro. É na convivência que a criança aprende a ceder e a exigir; a dar e a receber; a ouvir e a ser ouvida e, especialmente, é nessa prática que aprendem o equilíbrio entre cada uma dessas difíceis aprendizagens. Também é aí que passam a entender o que significa afeto, apoio, amizade. E para as crianças menores, que não entendem ainda o sentido das ausências dos pais, esses momentos acabam afastando os medos e formatando a segurança com base na presença constante ao final do dia. Enfim poderíamos ficar horas relacionando tudo de bom que resulta da convivência amorosa harmônica. No entanto, a preocupação que os pais referiram é específica: acabam brincando com os filhos por obrigação e não por que realmente estão com vontade, e isso os incomoda. Chama-me a atenção o fato de que os pais se sintam devedores dos filhos porque trabalharam. Não era para se sentirem assim, já que é o trabalho que propicia o pão nosso. E é importante colocar desde cedo as crianças a par dessa realidade. É saudável. E deixe-me ser bem clara: conviver, como diz a palavra, significa viver com, viver junto. Então por tudo de bom que representa devemos mesmo reservar parte do nosso tempo para os filhos. Mas não precisa ser brincando com eles, como se fôssemos nós também criancinhas. Se você gosta e curte, ótimo! Adora bater uma bolinha com o Júnior? Então beleza! Ama sentar no chão com sua filhotinha e ficar trocando roupinha e fazendo comidinha para as bonecas? Faça isso! Mas se lhe aborrece, não faça isso! Faça outra coisa: descubra no que tem prazer com seus filhos. Prazer a dois, bem entendido… Nem é legal pegar a criança e levá-la para percorrer e assistir sua longa caminhada, loja em loja, pelos shoppings da vida, que criança precisa é de correr e brincar. Nem é legal ficar fingindo que tem cinco anos e tentar brincar como ele, mas completamente enfadado. Até porque a criança sente e percebe direitinho quando você está bem a seu lado – e quando não está. E poderá confundir seu tédio...

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BABÁ OU CRECHE?

BABÁ OU CRECHE?

Você prestes a voltar ao trabalho, deixando em casa aquela figurinha doce e esperada. Quatro meses se passaram num piscar de olhos; agora é decidir: babá ou creche? Tadinho, você pensa, com o coração apertado. É decisão difícil sim, por isso deve ser feita com calma, porque a emoção nesse momento não é boa conselheira. Primeiro é preciso definir o que vocês, pai e mãe, desejam. Ideal é começar bem antes de a licença se esgotar. E como é raro hoje se poder prescindir do trabalho, provavelmente o que precisará ser definido é onde e com quem a criança vai ficar. Por mais que todos afirmem que creches são os locais ideais é preciso estar pessoalmente convencido. São muitos os medos: medo de a criança não se sentir feliz; de dividir o amor dela com outras pessoas; de que ela se sinta abandonada. Etc. Praticamente todos têm esses momentos de angústias, porque o que se sente pelos filhos só compreende quem também os tem. Qual a melhor idade para colocar na escola? Como ter segurança de que se está tomando a melhor decisão? Até dois anos, se um dos pais não trabalha fora, e pode (e quer) ficar com a criança, ótimo: é extremamente importante a convivência por questões de segurança e pela formação de vínculos. E, a não ser que haja uma abençoada vovó disponível, a melhor decisão é selecionar bem a creche. Os argumentos mais comuns dos que preferem deixar o filho em casa são: a criança fica mais exposta a doenças; outras crianças podem agredi-la; vai aprender um monte de coisas inadequadas, palavrões e outras bobeiras. Realmente a criança poderá correr alguns desses riscos – ou todos. Considerando, porém, que em casa, outros mais graves e mais difíceis de serem detectados existem, vale a pena pesar as vantagens das escolas. Matematicamente falando os perigos tornam-se pequenos, comparados aos ganhos. Comece respondendo: Até quando poderá manter seu filho numa redoma? Mais um ano? E nesse ínterim ele não vai se relacionar com crianças no play ou na pracinha? E a babá não vai também se relacionar com ele? E, ainda que todas as babás fossem eficientes e carinhosas, você poderia acompanhar o tempo todo como ela cuida do seu filho? Portanto, um benefício imediato é o fato de que, na creche, seu filho sai da dependência de uma pessoa passando a várias, treinadas e supervisionadas. Outros ganhos indiscutíveis são intelectuais e sociais. A criança que tem contato com outras é mais sociável, menos egocêntrica e mais tolerante; e crianças adoram conviver com gente do seu tamanho. Já observou o encantamento de um bebê que, na rua, de dentro de seu carrinho, se depara com outro? As trocas emocionais e as aprendizagens sociais são processos que só se efetivam nesses contatos. Sem falar no trabalho incrível que professores especializados em educação infantil promovem. As atividades pedagógicas diárias influenciarão...

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BRASIL EM PRIMEIRO!

BRASIL EM PRIMEIRO!

É verdade, ficamos em primeiro, mas não na Copa! Estou me referindo ao estudo que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico divulgou no qual ocupamos o primeiro em bagunça na sala de aula! Somos o país cujos professores mais perdem tempo para combater a indisciplina (20% do tempo, mais 12,2% em tarefas como fazer chamada, e somente 67% em atividades pedagógicas). Diante do quadro, sobram especulações. Segundo alguns, falta ao docente domínio de classe; outros apontam a tecnologia como solução; há os que afirmam que as aulas são desmotivadoras e a bagunça, mera consequência. Preocupam-me afirmativas que culpabilizam o professor – e param aí. Porque o problema é mais complexo e se agrava ano a ano. Professor apanhar de aluno ou ser xingado já é corriqueiro. E sim, alguns docentes erram – afinal ninguém é perfeito. Não nego que todas as hipóteses acima têm certa razão. Não atacam, porém, a raiz do problema. Estudo que empreendi em 2006, com cerca de dois mil docentes mostrou que, de norte a sul do país, professores consideram a indisciplina e a falta de respeito dos alunos, seu mais grave problema. E sinto dizer: boa parte disso se origina na família e, claro, pode se agravar se a escola não for de qualidade. Verdade é que boa parte dos pais deixou de lado o que tão bem fazia: a socialização primária, que nada mais é do que ensinar limites, respeito a colegas e autoridades – enfim as bases da boa educação. O que faz muita diferença. E era o que permitia aos docentes iniciar a aula tão logo entrasse em sala. Hoje demanda meses para que alcancem a situação de aprendizagem – um conjunto de condições que têm que estar presentes no ambiente para propiciar concentração e foco, essenciais no processo de aprender. Turmas muito indisciplinadas tornam impossível até mesmo escutar o que o professor diz quanto mais se concentrar! Aprender assim é loteria. Claro, o professor tem ação preponderante no processo. Mas na sala de aula que se rege pelo descompromisso, cadeiras e bolinhas voam! Além disso, há toda uma situação dita “politicamente correta” que inibe que se faça qualquer sanção a alunos recalcitrantes. A situação beira o insolúvel. Contribui bastante para o caos a postura de alguns pais que ameaçam trocar de escola quando contrariados ou “denunciar à imprensa” quem puniu o seu anjinho… Tudo isso levou os alunos à percepção de que podem fazer tudo que quiserem que nada lhes acontecerá. E podem mesmo, em muitos casos. A escola tornou-se refém dos que insistem em torpedear a própria aprendizagem – e acabam prejudicando a todos. Então, antes de comprar tablets é preciso garantir espaço mínimo de autoridade pedagógica ao gestor e sua equipe, sem o que é impossível propiciar qualidade. Claro, o professor pode e deve dar aulas modernas e usar meios que ajudem a motivar. Mas é...

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