Crianças devem assistir aos telejornais?
19.05.06

Sozinhas ou acompanhadas, as crianças assistem aos principais telejornais brasileiros. Diante deles, o público infantil tem acesso a uma variedade de informações, contextos e realidades nem sempre de fácil compreensão. Nos últimos dias, os noticiários de TV se dedicaram a cobrir a violência que tomou conta da cidade de São Paulo. Cenas de assassinatos, rebeliões e pânico foram veiculadas a todo o momento para informar e cativar a atenção da população. Com certeza, as crianças fizeram parte desta audiência. Mas será que elas realmente precisam acompanhar estas coberturas jornalísticas? Em que medida tamanha exposição favorece o entendimento dos fatos? Quais conseqüências isto pode gerar?

As perguntas não são tão fáceis de serem respondidas. Especialistas na área de Comunicação, Educação e Psicologia dizem que proibir o acesso não é a saída mais indicada. Afinal de contas, o que é apresentado faz parte do mundo em que as crianças vivem. Negar este acesso seria negar o conhecimento da própria realidade. Para a professora do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio) Rosália Duarte, o mais interessante seria que as emissoras produzissem telejornais específicos para o público infantil, nos quais as informações fossem veiculadas com a objetividade e seriedade de um telejornal, mas sem o componente violento característico dos atuais.

Mas, entre o desejável e o possível nos dias atuais, o que fazer? Na opinião de Rosália, o mais sensato seria que os pais assistissem aos noticiários com os filhos. O que, na prática, muitas vezes ocorre. Pesquisas revelam que as crianças vêem, com mais assiduidade, os telejornais noturnos e na presença dos responsáveis. “É nesta hora que geralmente as famílias estão reunidas. É a hora que os pais estão em casa preparando o jantar e interessados em saber o que aconteceu naquele dia. Neste momento, os telejornais são a principal fonte de informações. Estabelecer uma mediação entre o que a mídia exibe e o que a criança vê, entende e assimila é, portanto, essencial e recomendado. Caso as crianças assistam aos noticiários sem a presença dos pais, acredito que eles devam depois conversar com elas, perguntar o que elas viram. Uma pesquisa realizada na Europa afirma que a mãe é a principal mediadora entre a televisão e a criança”, afirma.

A professora e escritora Tânia Zagury faz coro às afirmações de Rosália. Não se deve ocultar das crianças a realidade que se vive. É importante que elas tenham consciência do mundo no qual estão inseridas até mesmo para que possam se defender. “Caso contrário, elas terão um choque ao se deparar com o mundo fora de casa. Sem interferir nos bons momentos da infância, os pais devem permitir um acesso paulatino às informações veiculadas pelos noticiários. De um modo geral, a exposição maciça à televisão [e aos conteúdos violentos] pode provocar inseguranças, medos, pesadelos, pânicos. Isto, às vezes, acontece com os adultos, o que dirá com as crianças?”, questiona.

Em Magalhães Bastos, Zona Norte do Rio, Fátima Lima, diretora da Escola Municipal Muniz Freire, vem constatando o quanto as informações dos telejornais fazem parte das conversas das crianças. A cobertura jornalística sobre a violência em São Paulo ganhou destaque nesta semana. “Os alunos, que têm entre seis e doze anos, trouxeram vários questionamentos e pensamentos. Mostraram-se preocupados e, de certa forma, perplexos com os acontecimentos e com o presente e o futuro, fazendo correlações da violência de São Paulo com a violência de sua região”, conta.

Ver crianças de seis, sete, oito anos preocupadas com tais questões assusta a diretora. Mas à medida que as informações não são veladas, que a mídia dá um grande espaço para o tema, e que o assunto chega às crianças, ela acredita que seja papel tanto dos pais quanto da escola trabalhar com a realidade que se apresenta. “É preciso discutir o assunto. É necessário despir a notícia e trabalhá-la, sem minimizar ou superdimensionar os acontecimentos. Deve-se também aproveitar a oportunidade para ouvir as crianças. A fala dos alunos, nesta semana, era carregada de sentimentos de solidariedade e de compaixão pelas vítimas de São Paulo. Valores que merecem ser ouvidos e trabalhados pelos pais e também pela escola”, conta.

Para Fátima, os pais não deveriam proibir as crianças de assistirem aos noticiários, mas poderiam, de certa maneira, dosar a exposição. “Quero dizer que as crianças também precisam assistir a outros tipos de programas. Saber que a violência existe é importante. Mas também é imprescindível que elas saibam que há outras coisas interessantes e que nos dão esperança”, destaca.

Levantamento realizado pelo Grupo de Pesquisa Educação e Mídia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), em setembro de 2004, revelou que os telejornais fazem as crianças sofrerem e provocam tristeza e ansiedade. “As crianças disseram que se pudessem prefeririam ‘não ver nunca’ ou ver somente quando fossem adultos ou quando não houvesse mais violência no mundo. Um grande percentual afirma não gostar dos telejornais porque apresentam muitas cenas de violência”, explica a professora Rosália Duarte.

A percepção que as crianças têm do mundo, por meio do que é veiculado pelos telejornais, é que elas moram num lugar onde é impossível de se viver, tamanha existência de agressividade e violência. “Do que observamos até o momento, este tipo de distorção da realidade parece ser muito mais prejudicial para a construção da visão de mundo delas e de seus projetos de futuro do que aquela produzida pelos desenhos animados que tanto preocupam professores, pais e especialistas”, observa Rosália.

Para a diretora do Núcleo de Publicações da MULTIRIO, Maria Inês Delorme, embora grande parte esteja cansada de assistir aos telejornais devido ao conteúdo negativo e violento, as crianças ainda creditam valor a esse tipo de programação, já que é por meio dele que elas têm contato com informações diversas.

Muitas crianças relacionam informação, cultura e entretenimento como sendo os bens de consumo mais importantes a que têm acesso por meio da TV. E os telejornais são uma grande fonte. Em geral, a vida das famílias contemporâneas reserva um espaço garantido no sofá para todos durante o noticiário que vem depois da novela das 19 horas e convida para a das 20 horas. Cenas de violência também estão presentes nas novelas, só que são apresentadas de forma diferenciada e com uma narrativa muito mais sedutora. Me pergunto: se fosse dada a chance de as crianças optarem, será que elas deixariam a TV ligada na hora dos telejornais?”, polemiza Inês.

De acordo com a diretora, os pais deveriam, sim, assistir aos telejornais com os filhos. Mas ver junto, na opinião da professora, não implica necessariamente em diálogo. "É imprescendível que adultos e crianças conversem sobre as suas preferências, medos, gostos, valores a partir do que vêem na TV. Não podemos nos esquecer de que aquilo que a mídia apresenta já passou por inúmeros filtros, olhares, atendendo a vários interesses e pontos de vista. Há vários níveis de mediação", conclui.

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